26 Outubro 2009

NARRAR EM HIPERTEXTO
PARA A ERA DIGITAL

"Narrar em hipertexto para a Era Digital" é uma das ativididas inseridas na programação da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, que se inicia sexta-feira, 30 de outubro. Trata-se de uma oficina que mescla técnicas de criação literária com novas ferramentas de comunicação, propondo aos participantes que pensem a criação a partir desse novo paradigma.

Serão trabalhados conceitos mais literários, como personagem, tempo e espaço, ao lado de conceitos da tecnologia como hipertexto, multimídia e interatividade. Ao final se planeja a elaboração de uma narrativa que integre literatura e tecnologia, que será exibida na I Mostra de Blogs e narrativas digitais.

Oficina com Marcelo Spalding
Dias 12, 13 e 14 de novembro, das 16h30min às 18h
Casa do Pensamento - Área Infanto-Juvenil da Feira do Livro de POA
ENTRADA FRANCA!

Confira a programação completa da semana em
www.literaturadigital.com.br

12 Outubro 2009

CRÔNICAS DE VALADÃO
Detetive

Valadão perdeu um irmão em desastre de automóvel. Foi na estrada que liga Porto Alegre ao litoral Norte. Ataque cardíaco, logo após o segundo pedágio, antes do acesso aos municípios de Osório e Tramandaí. Chegou a ser atendido pelos socorristas da concessionária responsável por aquele trecho da rodovia, mas não resistiu e morreu na ambulância a caminho do hospital.

Era sargento da Brigada Militar, cedido à Assembléia Legislativa a pedido de um deputado. O acidente aconteceu durante uma campanha eleitoral, a caminho de comícios do governador candidato à reeleição. Foi o brigadiano quem incentivou Valadão a se profissionalizar como detetive particular.

Apesar de praça, era segundo sargento, o irmão cultivava boas relações com oficiais e comandantes da corporação. Ganhara fama como motorista de viaturas do Batalhão de Operações Especiais, acostumado a guiar em alta velocidade. Foi essa qualidade, inclusive, que o aproximou do tal deputado, para quem dirigia sempre com o pé colado. Cento e cinqüenta, cento e sessenta por hora, às vezes até mais, em carros turbinados, equipados com anti-radar contrabandeado da Argentina.

O primeiro caso
Valadão cumpriu todas as exigências legais, a começar pelo curso de formação à distância. Foi à Delegacia Regional do Trabalho e registrou-se na categoria profissional de Detetive Particular. Contribui para o INSS, tem empresa registrada na Junta Comercial e paga impostos à prefeitura. E o melhor de tudo, segundo constatou na prática: a profissão é livre de qualquer embaraço fiscalizador por órgão ou conselho.

Indicado pelo irmão aceitou o primeiro caso. O cliente era um desembargador aposentado, amigo do deputado estadual. Desconfiava que a mulher, trinta e cinco anos mais jovem, o traía com um amante da mesma idade. Foi à casa do homem, tiveram longa reunião a portas fechadas. Depois de ouvir perguntas e fornecer explicações sobre métodos de trabalho, informou o valor da empreitada. Dez mil reais, metade na hora e o resto ao final do trabalho. Estipulou prazo de trinta dias, ao término do qual apresentaria provas para condenar ou absolver a suposta adúltera.

O primeiro impulso de Valadão foi dar o golpe. Já estava com a grana no bolso. Em trinta dias, independente do que dissesse, iria faturar mais uma bolada. O velho era otário mesmo, deduziu, no dia em que foi apresentado à suspeita. Não precisava de investigação para compreender a natureza daquela pessoa. Pela linguagem e a maneira de vestir e se comportar, era óbvio que tratava-se de mulher de vida fácil, talvez ex-prostituta de boate de luxo. Chegou a perguntar para o cliente sobre a vida pregressa da esposa, mas ele desconversou e apenas disse que dava aulas em academia de dança. Inclusive, pensava em montar um estúdio para ela, possivelmente contíguo à academia que abrira para o filho, recém chegado da Europa.

Vira-latas se reconhecem pelo cu
Filho? E o homem explicou, constrangido. Júnior era personal trainer. Morava na Espanha, onde dava aulas de Jiu Jitsu e Muai Tai. Vivia clandestinamente, envolveu-se numa briga de bar com travestis, foi preso, cumpriu alguns meses e o deportaram para o Brasil.

Malandro por vocação tem uma qualidade que o destaca. Ao contrário das pessoas normais, suscetíveis aos achaques de escroques e aproveitadores, o malandro identifica de cara quem é embusteiro, talvez por tratar-se de dois iguais. É como os cachorros de rua, que se identificam e reconhecem quando cheiram a bunda uns dos outros.

Valadão abandona a idéia do golpe. Plano B. O caso era barbada. Com a ajuda do irmão brigadiano, grampeou de forma clandestina os telefones da casa do desembargador, além dos celulares da mulher e do filho. Em poucos dias reuniu provas. Fotos e gravações que comprometiam Júnior e a madrasta. Astuto, ao invés de apresentar o dossiê, pediu mais trinta dias de prazo, sem ônus para o cliente, que também prorrogaria o pagamento da quantia pendente. A proposta foi aceita, e com ela surgiram duas novas frentes de trabalho.

Primeiro visitou a academia de Júnior. O playboy tentou botar banca, fez que ia sair no soco, mas em seguida já estava manso, falando miúdo, apavorado com a idéia de perder regalias. O pior pode ser evitado, explicou Valadão, acenando com a possibilidade de manter tudo em segredo. Poderia dizer ao velho que nada descobrira. Era simples, bastava apenas um comando para que a coisa fosse esquecida. Proposta semelhante fez à madrasta, também interessada em colocar panos quentes no escândalo familiar. Ao final das negociações, ambos aceitaram as cláusulas de Valadão.

Júnior entregou de papel passado uma moto Honda 750, recém adquirida. E a mulher do cliente, ao longo de trinta dias, foi sodomizada em motéis de luxo. Terminado o prazo, por questão de ética profissional, entregou o dossiê prometido e recebeu cinco mil reais. O velho, apesar de decepcionado com a dupla traição, agiu com sabedoria. Magnânimo. Júnior foi enviado aos Estados Unidos para aperfeiçoar suas técnicas de combate no solo, e a mulher finalmente realizou o sonho da academia de dança. Caso encerrado.

09 Outubro 2009

CRÔNICAS DE VALADÃO
Viagem em família

Valadão teve várias ocupações e endereços. Atualmente sobrevive como músico. Tem uma banda de rock, e a qualquer momento deve estourar nas rádios. Enquanto isso faz bicos numa produtora de áudio especializada em jingles, dá aulas de violão e joga em bingos e caça-níqueis clandestinos.

Seus filhos estão criados. Quase chegando aos cinquenta, ainda vive no ritmo acelerado de vinte anos atrás. Era o auge, como ele mesmo costuma dizer, nos bate-papos etílicos que redundam em desabafos e delírios saudosistas.

Em Porto Alegre, no final da década de oitenta, o bairro Ipanema era muito bem servido no segmento de mercado conhecido como prestação de serviços, ramo do entretenimento adulto. No antigo balneário, ainda hoje um ponto nobre da capital gaúcha, funcionava naquela época duas saunas masculinas e uma boate. Os três estabelecimentos eram muito requisitados. Artistas de passagem pela cidade, jogadores de futebol, jornalistas conhecidos, políticos e empresários eram clientes assíduos.

Naquele tempo Valadão tinha dinheiro, prestígio e amigos importantes. Trabalhava em dois empregos: traficante de cocaína e gigolô. Agenciava quinze garotas de programa, mantidas em sistema de rodízio entre as saunas Gávea e Ilha da Fantasia e a boate Five Star. Nenhum desses lugares existe hoje em dia, mas quem os conheceu deve lembrar, ou desconversa e finge que lá nunca esteve.

Prestação de contas
e
prospecção de clientes

O esquema era simples. Primeiro recrutava as putas na avenida Farrapos. Depois ganhava confiança, tirava das ruas, dava banho de loja e, pessoalmente, dedicava algum tempo e ainda mais dinheiro num programa de aperfeiçoamento. Hoje em dia seria uma espécie de upgrade do staff. Naquela época, apenas um jeito de qualificar a mão-de-obra para ter mais chances de disputar no mercado cada vez mais competitivo.

Quinze por cento do valor recebido ficava para o dono casa. O mesmo percentual era destinado ao cafetão. No final do expediente elas recebiam no caixa, tomavam banho, trocavam de roupa e a prestação de contas acontecia num dos bares que funcionavam à beira do Guaíba. Hoje eles não existem, a prefeitura mandou derrubá-los.

Numa sexta-feira à noite, início do feriadão de Nossa Senhora Aparecida, Valadão despacha apressado com as funcionárias, impaciente para concluir a agenda de audiências. Um importante grupo de rock chegaria à cidade na próxima semana e ele fora acionado por um amigo, dono da produtora que os trazia. A lista de exigências dos músicos incluía justamente os dois itens fornecidos pela Valadão Empreendimentos. Ainda naquela noite deveria se encontrar com o empresário da banda, que viera antes e estava hospedado no Plaza São Rafael. É o mesmo hotel que, anos mais tarde, após fuga cinematográfica do Presídio Central, foi invadido por Melara e os facínoras.

Morangos
O acerto de contas com as funcionárias transcorreu normalmente. Queria agradar ao empresário, e levou amostras dos produtos que comercializava. Duas foram destacadas para acompanhá-lo na reunião do hotel. Como tinham pressa, e não houve tempo para maiores produções, trocaram de roupa e retocaram a maquiagem dentro do carro, a caminho do centro.

O encontro aconteceu na luxuosa suíte onde se hospedara o produtor cultural. Champanhe, morangos e suruba. Depois vararam a madrugada, regados a uísque doze anos e droga. Valadão foi embora com a metade do dinheiro correspondente ao que seria consumido pela banda de rock nos dias de show no Ginásio Gigantinho.

Após a reunião, levou as funcionárias em casa e ainda passou num ponto de vendas 24 horas que mantinha no bairro Tristeza, onde arrecadou mais dinheiro. Tudo aconteceu conforme planejado, ainda a tempo de retornar para casa, carregar o carro e honrar o compromisso familiar. Iria com a mulher, o casal de filhos, a sogra e o cachorro para o litoral de Santa Catarina, de onde retornariam terça-feira após o feriadão.

Chegou ao amanhecer. A mulher, apesar de ciumenta e possessiva, não perguntou de onde viera. Conhecia a natureza de suas atividades, acostumara-se a seus hábitos e horários fora de padrão. Era bom pai, excelente marido, cumpridor de suas obrigações inclusive na cama, não tinha do que se queixar. Dele aceitava quase tudo, menos o contato íntimo com as garotas que agenciava.

Rumo ao litoral
Partiram às sete horas, depois de lauto café da manhã com vários tipos de frios, cucas e pães. A idéia era seguir direto para Laguna. Ficariam hospedados na casa de um amigo no farol de Santa Marta.

A viagem transcorreu sem maiores transtornos, salvo o bate-boca das crianças durante partes do trajeto. Fizeram uma parada em Tramandaí para comprar cigarros, doces, tomar caldo de cana e abastecer o Opala seis cilindros. A mulher, a sogra e as crianças foram ao banheiro. Valadão aproveitou para fumar um baseado atrás do posto de gasolina, antes de retornarem à estrada.

Estavam chegando ao município de Torres, na divisa com Santa Catarina, quando começou a chover. Lá pelas tantas, para desviar de um buraco, Valadão freia o carro bruscamente. Neste momento, por causa do solavanco, percebeu a presença de um objeto indesejável que rolou debaixo do banco do motorista. Era o pé esquerdo de um par de sandálias. Na mesma hora deu-se conta: uma das gurias deve ter deixado cair de madrugada, quando trocara de roupa dentro o carro, a caminho do hotel.

Sem perder a calma, e já temendo que a mulher enxergasse o sapato e fizesse um escândalo, seguiu dirigindo tranquilo como se nada houvesse acontecido. Por sorte, alguns quilômetros à frente, houve um grave acidente envolvendo dois carros e uma carreta. Valadão aproveitou o momento. A atenção de todos voltou-se para a tragédia, e ele rapidamente atirou a sandália pela janela, livrando-se do flagrante.

Aliviado, seguiu viagem e até cantarolou as músicas da Xuxa que as crianças ouviam no toca-fitas. Chegaram ao destino, descarregaram o carro e foram se instalar nos quartos que o amigo destinara à família. A sogra, entretanto, permaneceu no automóvel. Questionada sobre o motivo da demora, respondeu num misto de indignação e perplexidade. “Incrível! Não consigo achar o pé esquerdo das sandálias. Tenho certeza que coloquei debaixo do banco do motorista!”

06 Outubro 2009

PARA GOSTAR DE LER

Em dezembro de 1991, passei no vestibular do curso de jornalismo da PUCRS e fui selecionado na Oficina de Criação Literária do Instituto de Letras e Artes da mesma universidade. Faz quase 18 anos. Eu tinha 19 anos e meus pais estavam de férias no Rio. De lá, após receberem a dupla notícia, trouxeram de presente “Os melhores contos de Fernando Sabino”, de quem eu já era leitor e fã.

Tenho o livro a meu lado agora, enquanto escrevo estas linhas. Na verdade, cresci lendo o Sabino. Era recorrente na biblioteca dos meus pais, e depois fiquei com todos os livros para mim. Aliás, se não estou enganado, o primeiro contato com a obra do autor foram as crônicas da coleção "Para gostar de ler", da Editora Ática. Meu irmão, quatro anos mais velho, teve de fazer a leitura da obra como tarefa da escola. E eu aproveitei a oportunidade para fazer minhas primeiras incursões em “leituras de adulto”. Outra leitura que marcou meus primeiros passos foi O menino no Espelho, da mesma forma que O Menino Grapiúna, de Jorge Amado, e Menino de Engenho, de José Lins do Rego. Hoje, tenho quase todos os livros do Sabino.

O cara é um dos meus mestres, pela simplicidade da linguagem e a escolha do cotidiano como temática principal. Sabia valorizar a palavra, era econômico e nos seus textos não sobrava absolutamente nada. Além disso, fazia uso inteligente do diálogo direto. Usava na medida certa, sempre que possível entremeado por ações e breves descrições. E não era exibido, nem fazia malabarismo com a palavra. Era preto no branco.

Passados cinco anos ele ainda faz falta, e sempre fará. Ao menos o vazio e a ausência terminam quando releio a obra de Fernando Sabino. Escritor, jornalista, nasceu homem dia 12 de outubro de 1923, e morreu menino naquele dia 11 de outubro de 2004*. Quando eu partir, é dele um dos primeiros autógrafos que pedirei lá em cima.

*Por coincidência, 11 de outubro é a mesma data em que morreu Renato Russo, em 1996.

05 Outubro 2009

FRANCO ATIRADOR

Sempre defendi que não existe autor mais capaz, em termos de criatividade, do que as circunstâncias e situações oferecidas pela vida. O segredo é saber observar, e ter a capacidade de reproduzir aquele conteúdo de forma literária, se possível com interesse para o leitor. Desconheço autor bem sucedido que não seja, antes de tudo, um paciente observador. Escritor é o sniper da vida alheia. Fazemos mira em alvos a longa distância, parados ou em movimento. Somos Vassili Zaitsev contra os nazistas na batalha de Stalingrado.

Mesmo sem olhar, apenas com o sentido da audição, torna-se fácil decifrar códigos e montar uma história que precisará de pequena ajuda para ir adiante. No meu caso incluo o conflito, espécie de obsessão para mim. Respeito quem o dispensa, talvez porque não consiga dominá-lo, ou porque estamos todos errados e o certo mesmo é o conto paraplégico, curupira, de pernas viradas para trás e personagens que falam a língua dos elfos. Questão de gosto e escolha.

Para mim, interessante pode ser o vizinho do andar de cima. Nunca o vi, mas hoje à tarde escutei o que dizia ao telefone. A vida é sempre um exercício de criação. Pela voz, logo na primeira frase, percebo algumas opções de vida da suposta personagem. É jovem, homossexual, e a julgar pelo vocabulário veio de alguma cidade do interior, mas de outro estado. No conteúdo da mensagem consigo captar o conflito. Desempregado, frequenta uma universidade, aguarda a visita de um familiar para os próximos dias e tem apenas mais um mês de seguro desemprego. Com estes argumentos é possível montar um conto. O resto é criatividade e estilo.

O MONSTRO COME GENTE

A convivência com uma profissional da área de Saúde abriu novas perspectivas para a construção de personagens. Não me atrevo a reproduzir o que desconheço, nem tenho vocação para a narrativa fantástica ou a metalinguagem. As coisas do cotidiano têm mais valor para mim. E o lado açougueiro de homens e mulheres que convivem diariamente com a vida, driblando a morte com ciência, métodos e procedimentos, vai ao encontro de um dos objetivos perseguidos como autor: mostrar a versão inferno do mundo, angústias, vitórias e derrotas do dia-a-dia.

Todas as noites, durante um plantão que se inicia 19h e encerra às 7h do dia seguinte, nascimentos e óbitos tornam-se corriqueiros, exatamente como os formulários preenchidos para que hospitais sejam ressarcidos pelo SUS ou convênios particulares. Nasceu antes da hora, houve complicações. Alguém precisa enfiar a pequena agulha na testa do recém nascido. E rápido, senão os medicamentos necessários àquela frágil vida não serão ministrados a tempo. Se o pior foi inevitável, estaremos frente a mais um número nas estatísticas. Amanhã é outro dia, outras parturientes darão entrada e novas histórias virão à luz para serem contadas por caras como eu.

Outro exemplo? Os traumas. Eles demonstram nossa fragilidade. De uma hora para outra, sem aviso prévio, termina o encanto da mágica. Apesar do despiste, um dia finalmente teremos de comparecer àquele encontro protelado. Para quem sobrevive à experiência deve ser como despertar de um sonho ruim, só que neste caso o pesadelo acontece quando estamos acordados. Não há outra saída, a não ser encarar o monstro. Pode ser desatenção no trânsito, tentativa de assalto que termina em tragédia, acidente cardíaco ou vascular cerebral. Vivemos numa corda bamba entre arranha-céus.

DE VEZ EM QUANDO UM DOMINGO

Ela dorme enquanto escrevo. Uma longa jornada se inicia daqui a pouco. Não para mim, que prezo o ócio criativo, mas para a enfermeira. Trabalha das nove da manhã às três da tarde. Das sete da noite às sete da manhã do dia seguinte, numa cidade vizinha, está em outro emprego. A exemplo dos jornalistas de rádio, jornal e tevê, a maioria dos profissionais de saúde não tem final de semana. É engate sábado ou domingo. E se ocupar cargo administrativo, possivelmente o celular será acionado dia e noite.

Quem escreve durante a madrugada já está acostumado à jornada de trabalho do Drácula. Não é todo dia que aparecemos sorridentes e bem humorados ao clarear do sol. De vez em quando, entretanto, é possível viver algumas horas pelo fuso-horário das pessoas normais. Melhor ainda se for domingo e houver sol.

A rotina de domingo na Cidade Baixa, espécie de Lapa porto-alegrense, difere do que se presencia no bairro durante a semana e no sábado. Avenidas sem carros, ausência de buzinas e freadas. Bares fechados, ruas vazias. Único movimento é o das pessoas em direção ao Parque Farroupilha. Guardadas as proporções, a Redenção é o nosso Central Park.

É bom ser provinciano. Melhor ainda é observar as pessoas. Universos distintos e ao mesmo tempo conectados. Percorrer as bancas do Brique, andar no parque, sentar à beira do lago e, talvez com alguma sorte, observar o feroz ataque da tartaruga devoradora de pompas. Aconteceu no Parque Moinhos de Vento.

24 Julho 2009

TWITTER

140 letras para digitarmos abóboras, jornalismo, toques de sabedoria ou notícias que ninguém quer ouvir: mamãe morreu, velório começa às 7h.

http://twitter.com/cacobelmonte

15 Julho 2009

REPÓRTER MEMÓRIA

Na próxima terça-feira, 21, completo 13,5 mil dias de vida. Nasci no Hospital Moinhos de Vento. Residi nos bairros Menino Deus, Cidade Baixa, Ipanema, Cristal, Centro e hoje estou de volta à Zona Sul. Em Ipanema, morei de 1977 a 1997, e agora de novo faz dois anos.

É um lugar que difere muito do resto da cidade, não apenas pela geografia privilegiada à beira do Guaíba, mas também pelo modo de vida dos moradores. Aqui é um dos portais que dão acesso à Porto Alegre rural, em direção ao extremo sul, até os limites com o município de Viamão.

Já não temos aquele ar de cidade do interior, predominante até meados dos anos 80, embora o bairro ainda preserve resquícios e relíquias, até mesmo de décadas anteriores à referida. Algumas casas de madeira, erguidas na década de 40 para veraneio, sobreviveram ao tempo. Nem todas estão conservadas, mas muitas ainda resistem.

Ser de algum lugar, para mim, não é apenas viver o dia-a-dia. É preciso sentir o clima, conhecer as histórias e tomar conhecimento dos patrimônios material e imaterial da região. Já sei que Porto Alegre passou a existir oficialmente em 26 de março de 1772. Nossa localização é 30º de latitude e 51º de longitude. O território tem 476,3 quilômetros quadrados, a uma altitude de 10 metros acima do nível do mar, com espaços de planície cercados por 40 morros que abrangem 65% de nossa área total. São 72 quilômetros de orla fluvial. Temos mais de 1,4 milhão de habitantes. Somos uma das cidades mais arborizadas do mundo, com mais de um milhão de árvores, 409 praças, reserva biológica, nove parques urbanos e a maior concentração de pássaros do país.

Nesse contexto está inserido Ipanema. Para ajudar a preservar as histórias do bairro, estou empenhado na assessoria de imprensa ao projeto Memorial de Ipanema. É o primeiro memorial de bairro do Rio Grande do Sul, totalmente financiado com recursos privados e apoio institucional da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, por meio da Secretaria Municipal da Cultura.

No post abaixo, reproduzo o release enviado à imprensa.

MEMORIAL RESGATA HISTÓRIA
DO BAIRRO IPANEMA

Exposição permanente. Mostra itinerante. Projeto educacional e, no futuro, a construção de uma sede própria. Estes são alguns dos objetivos do Memorial de Ipanema, que tem curadoria e pesquisa da gestora cultural Michele Kara.

Segundo Michele, que há dois anos dedica-se à pesquisa e formatação do projeto, trata-se do primeiro memorial de bairro da Capital. A iniciativa é sustentável, totalmente bancada pela comunidade, com a ajuda de empresários da Zona Sul. O projeto tem apoio da prefeitura, por meio da Secretaria Municipal da Cultura (SMC).

Campanha – A primeira etapa do memorial foi o lançamento de um site (http://www.memoriasdeipanema.com.br/), no ar desde o início de junho. Além de explicar detalhes do projeto e adiantar algumas das atrações do novo espaço, o site também vai funcionar como instrumento para que os moradores da região participem com doações, e apoiadores tenham visibilidade de suas marcas. “Vamos fazer uma campanha para que as pessoas colaborem com fotos antigas, mapas, documentos, resgate da memória oral e objetos que ajudem a contar a história do bairro”, explica Michele.

Como funciona – A primeira mostra permanente, com data a definir, será montada em espaço localizado na Avenida Tramandaí, 339, bairro Ipanema (ao lado do posto de saúde). Além de fotos antigas, mapas, depoimentos e objetos, serão instalados recursos multimídia para interação dos visitantes com o que está sendo apresentado. Também haverá mostra itinerante e um projeto educacional junto às escolas da região. “Teremos projeções, reproduções em áudio resgatando antigas histórias do bairro”, afirmou a curadora.

O acervo do Memorial de Ipanema já conta com documentos, livros, mapas e fotografias pesquisadas em acervos públicos e pessoais. Os documentos comprovam e relatam detalhadamente o processo de formação do bairro e da região, desde 1832 até os dias de hoje.