26 Maio 2011

NELSON DECLAMA POESIA

Quando acordou, naquela manhã chuvosa de sexta-feira, decidiu que faria uma surpresa romântica. Ligou para o celular da noiva, mas ela não atendeu. Solange estava no Rio de Janeiro. Congresso de três dias. Nelson insistiu, reiteradas vezes, e por fim deixou uma longa mensagem de amor gravada na secretária eletrônica.
XXX
Tinha acabado de atingir o orgasmo quando ouviu o telefone. Não iria atender, mesmo que quisesse. Flutuava, entorpecida, sentindo os músculos da perna ainda latejando. Mais uma vez, novamente sem culpa. Nelson era bom. Amigo, excelente caráter. Não tinha vícios, trabalhador. O genro dos sonhos de toda mãe zelosa.


23 Março 2011

O tom da palavra

O conto abaixo ainda não é o inédito, mas julguei que poderia republicá-lo, pois o ”tom da narrativa” difere muito daquilo que costumo produzir. Nesta história também não existe final feliz, mas a linguagem é bem mais leve, e de certa forma até meio poética em alguns momentos. Foi publicada originalmente em 2006 (No Orkut dos outros é colírio; Ed. Casa Vede).

CB

T E J A D A

Tens razão. Viajei à praia no final do ano esperando te encontrar na casa. Era uma chance para nós, como nos velhos tempos. Ninguém falou que tu irias, nem o contrário. Uma certeza inexplicável me fez largar tudo e partir, na esperança de tentar uma reaproximação ou até mesmo propor que nos reconciliássemos.

Não comentei nada a respeito com ninguém. Teria pouco a dizer sobre nós, àquela altura. Ainda hoje não consigo entender o que houve e por que estamos separados, se todos achavam que iríamos acabar como dois velhos burgueses à beira da praia: eu pescando e tu fazendo palavras cruzadas, embaixo do guarda-sol, com filhos e netos à volta. Para onde foi aquele ímpeto que nos consumia, exigindo a presença um do outro?

A casa estava vazia quando cheguei. O zelador abriu o portão. Fez uma cara esquisita ao me ver passando. Deve ter estranhado eu sozinho, com a velha bolsa preta da Adidas e o porta-malas aborrotado de carne e cerveja. Naquele primeiro dia fiquei à volta da piscina, até o final da tarde. Depois fui à praia. Fiz o mesmo trajeto de sempre, pela curva do rio, onde passam os barcos de pesca. Sentei naquela pedra em que a gente parava e fiquei olhando a água, exatamente como tu fazias, esperando a passagem do boto e a correria dos pescadores, atirando a tarrafa em busca dos peixes que ele persegue. Depois me achei ridículo e doentio, repetindo sozinho as mesmas coisas que fazíamos juntos e imaginando um recomeço, como se a visita àqueles lugares fosse uma espécie de mandinga ou prova de fé.

Ter ido sem convite ou aviso não me pareceu indelicadeza, nem incômodo, embora tenha percebido que alguns ficaram surpresos ao me ver, como se estivessem constrangidos com a minha presença, ou soubessem de alguma coisa que até então eu desconhecia. Depois, a casa ficou cheia e tudo parecia ter voltado ao normal, exceto pela tua ausência.

Não sofri nenhuma desfeita, nem ouvi qualquer tipo de grosseria. Ao contrário, fui tratado como se ainda fosse da família. O único inconveniente era o marido da tua prima. Tomou todas e resolveu me alugar na noite anterior a tua chegada. Teve a cara-de-pau de recomendar cautela e sugerir que não me surpreendesse se por acaso te encontrasse mudada. Não dei bola, óbvio. O cara é mesmo bebum e ninguém nunca o levou a sério.

Tuas irmãs, sim, pareciam solidárias comigo. Me olhavam sempre de canto, fazendo cara de piedade. Exatamente como tu, quando encontrou aquela cadela no meio da rua e resolveu trazer pra dentro de casa, independentemente de qualquer argumento contrário. Aliás, um dos teus sobrinhos chegou a comentar sobre o nosso cusco, o verdadeiro, e de como ele se enfureceu depois que a gente se separou, mordeu tua mãe e hoje está praticamente fora de controle, preso no canil.

Tinha apostado naquele final de ano na casa. Estarmos juntos outra vez poderia reavivar alguma coisa, desfazer a má impressão dos últimos tempos, apagar o rancor encruado. Talvez pudesse até redimir nossos erros, trazendo de volta a paz. Eu nunca mais sacrificaria nada por causa do trabalho, prestaria mais atenção nos detalhe e jamais esqueceria o que fosse importante, como fiz no dia do nosso aniversário. Esqueci, como também não liguei para desejar boa sorte na defesa mais importante da tua carreira, que acabou inclusive definindo para melhor a situação financeira lá em casa, naquela época.

Eu me preparei para o feriado, apesar de tudo. Depois de meses, considerando que nunca brigamos de forma inapelável, pensei no retorno como uma questão de tempo. Nós chegamos a almoçar duas ou três vezes, numa delas fomos pra cama e nunca deixamos de falar ao telefone. Além disso, a boa recepção das tuas irmãs e dos nossos amigos pareceu um indicativo bem realista, como se aquela certeza inexplicável não tivesse sido mais uma de minhas intuições pífeas.

Ter ido embora antes da virada do ano, acredite, não foi esquisitice. Verdade que saí para comprar cigarros e desapareci, com a roupa do corpo e o celular desligado no porta-luvas. Minha atitude intempestiva, enigmática, não dá direito às pessoas acharem que enlouqueci. Também não foi de propósito que aconteceu. Problema é que te vi no armazém do Tejada, junto com teu namorado, exatamente na hora em que fui comprar a maldita carteira de cigarros. Percebi que vocês recém haviam chegado na cidade. Ainda bem que não me viram. Nem imagino qual teria sido minha reação. Preferi entrar no carro e fugir. Não do teu namorado, que é bundão e talvez nem reagisse. O que me deixou perplexo foi aquela barriga de grávida, sempre negada a mim, durante tantos anos. Hoje em dia, de tudo que vivemos, guardei apenas uma gaveta cheia das tuas calcinhas. O resto atirei pela janela.

16 Março 2011

NÃO MORRI!


Aviso àqueles navegantes que visitam esta enseada: não se trata de porto abandonado ou refúgio de navio fantasma. Finalmente, concluídos os consertos no casco e recarregadas as baterias antiaéreas, cargas submarinas, canhões de longo alcance, voltaremos à batalha. Em dois ou três dias, será lançado ao mar o primeiro cruzador de guerra da esquadra literária que estará de prontidão ao longo de 2011.

Ao invés do auto-elogio, faço minhas as palavras do escritor Marcelino Freire, que escreveu a introdução do meu livro de contos lançado em 2006 pela Casa Verde, com edição do também escritor Luiz Paulo Faccioli, intitulado No Orkut dos outros é colírio.

“Esse livro faz rir. É um livro debochadamente literário. Não são apenas contos escrachados, São contos que vão fundo. Caco, à la o mestre Dalton Trevisan, escreve na velocidade da sombra. Taí uma coisa que eu prezo na boa literatura: a coragem e o humor. Admiro o cara que saber ir no caroço da palavra e tirar uma casquinha.”

É exatamente isso o que os leitores podem esperar de mim: “velocidade da sombra, caroço da palavra, coragem e humor”. Por que o silêncio de anos e o blog desatualizado faz algum tempo? Simples, nem sempre tenho o que dizer.

Na maioria das vezes é melhor saber escutar do que falar em profusão e, ao mesmo tempo, não dizer nada que se aproveite. Escrevo pouco, portanto preservo o apressado leitor da frustração causada por textos enfadonhos. Aquele tipo de leitura que, depois de concluída, chega-se ao impasse e à frustração: “tá, e daí?”

Por fim, deixo aqui uma chamada do próximo conto a ser publicado: “Segredos antigos, outros nem tanto. O conto O BENEMÉRITO narra a história de um político bem sucedido. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é mera coincidência.”

03 Maio 2010

AUTOMÓVEL

Andar de automóvel com a personagem é tarefa difícil e para poucos. Num roteiro de tevê ou cinema, por exemplo, pode-se optar pela simplificação. O diretor e a equipe receberão orientações. Carro trafega na rua tal. O resto é com a imagem. Juntos eles fazem o difícil trabalho de narrar.

O escritor, coitado, por estar só, precisa grande habilidade para formar na mente do leitor uma imagem poderosa. A tarefa é de gincana mitológica, como Hércules e Ulisses, mas atrai pelo desafio e a dificuldade.

No livro, portanto, o buraco é mais embaixo.

Segue trecho em edição
do conto inédito "O benemérito"

TRECHO RASCUNHO - 2ª edição
O automóvel está a poucos quilômetros da Capital, na sequência de pontes da Travessia Régis Bittencourt. Canal Furado Grande, Saco da Alemoa, rio Jacuí e os mil e cem metros da ponte móvel sobre o Guaíba. Ao final, motorista sinaliza à direita. Desce a alça da elevada que dá acesso à Avenida Castelo Branco. Trânsito movimentado. Carros, ônibus e motos disputam espaço. De ambos os lados da pista, depósitos da Companhia Estadual de Silos e Armazéns. À esquerda o muro que protege a linha do Trensurb. Mais adiante, à direita, empresas extratoras de areia e o cemitério de navios estrangeiros abandonados no Cais Mauá.

No banco de trás a primeira-dama lê a última edição da revista Caras; a sogra completa as palavras-cruzadas do jornal Zero Hora. O prefeito segue concentrado nas páginas do discurso, ao som das Valquírias de Wagner. E o motorista, desde que passaram a última praça de pedágio, só pensa em chegar logo ao hotel onde ficarão hospedados. Precisa aliviar a bexiga.

A via troca de nome após as elevadas de acesso à Estação Rodoviária, Centro Histórico ou zona Norte. O Vectra segue na pista do meio e entra na Avenida Mauá. À direita o muro de concreto que protege a cidade contra cheias. Do lado esquerdo as ruas Cel. Vicente, Carlos Chagas, Chaves Barcelos, depois o camelódromo e terminal de ônibus da Praça Rui Barbosa, Palácio do Comércio, Mercado Público.

O motorista reduz a marcha e diminui a velocidade. Aciona o pisca-alerta, alinha o carro à esquerda. Vira na Rua General Bento Martins e segue morro acima até dobrar novamente à esquerda na Avenida Duque de Caxias. O automóvel cruza as ruas João Manuel e General Auto. Passa o Solar dos Câmara. Defronte à Casa Rosada o prefeito manda parar.

Mostra a construção e explica. “Antiga Provedoria da Real Fazenda. Prédio mais antigo da cidade, construído em 1790. Foi sede do Legislativo de 1835 a 1967, quando construíram o prédio atual, do outro lado da rua. Na planta original tinha só um pavimento, no estilo colonial muito comum àquela época. Lá por 1860 fizeram o segundo andar e a construção teve o estilo alterado com influências neoclássicas. Foi justamente aqui neste prédio que aconteceu a sessão de abertura da primeira Legislatura, em 20 de abril de 1835. Cinco meses depois, por causa do confronto entre o presidente da província, Antônio Fernandes Braga, e o então deputado Bento Gonçalves da Silva, Porto Alegre foi invadida e começava a Revolução Farroupilha.”

Ficam parados, em silêncio. Ouviram o que disse, mas ninguém prestou atenção. O motorista, necessitado de um banheiro, tenta não demonstrar sua angústia. Disfarça, balbucia a palavra interessante e olha fixo para o prédio. A primeira-dama boceja, e a matriarca é a única que não consegue conter a ansiedade. “Anda logo, criatura!”

O militar, após autorização do prefeito, arranca lentamente e dobra à esquerda na Praça Marechal Deodoro, em frente ao Palácio Piratini. O carro passa defronte à Assembléia Legislativa e contorna a praça à direita. Do outro lado a concha acústica, o Theatro São Pedro, a Rua General Câmara e o Palácio da Justiça. Vira novamente à esquerda, percorre o pequeno trecho do Largo João Amorim Albuquerque e desemboca no sentido único da Rua Riachuelo, morro abaixo. Roda alguns metros e dobra à direita no acesso à garagem do hotel.

27 Abril 2010

BLOCO DE NOTAS

Após a virada do século, final de 2003 ou meados do ano seguinte, blogs ainda não eram lugar-comum, sites eram toscos, lentos, e não existia recurso multimídia. Ninguém arrotava conceitos de mídia social, não contávamos com twitter e a massiva disseminação. Naquela época, poucos se aventuravam na internet.

No que me diz respeito, embora já houvesse participado de coletâneas em livro antes do fenômeno world wide web, foi por intermédio do veículo que realmente comecei a ser lido. Pela Internet foi possível divulgar/discutir literatura com autores, editores, leitores do Brasil e além-mar.

Hoje, mantenho ativo este blog e utilizo twitter, onde às vezes é possível fazer literatura no diminuto espaço disponível. Míseros 140 toques. O Exu é laboratório. Publico aqui, em primeira mão, o que ainda será definitivo na versão impressa.

TUBO DE ENSAIO - O que segue abaixo é auto-explicativo, mas adianto. Trata-se do roteiro de criação de um conto, incluindo a primeira parte do texto ainda inédito. Ao contrário de alguns, não considero inúteis as oficinas de criação literária, desde que ministradas por autores sérios, reconhecidos dentro e fora do mundo acadêmico. Dominar a forma é requisito básico.

Não condeno quem acredita na possibilidade do gênio que nasce pronto. Não critico autores que praticam a literatura de estilo, com linguagem cifrada e enredos que nos levam ao final da leitura, mas invariavelmente deixam a velha questão: “tá, e daí?”

O BENEMÉRITO - Roteiro
1.1) Vem a POA receber o prêmio Líderes e Vencedores, entregue pela Federasul e ALRS.
1.2) É prefeito no interior, a pouco mais de quatrocentos quilômetros da Capital. Na cidade, erradicou o analfabetismo na zona rural, criou o Programa de Saúde da Família no Campo e fomentou a criação de cooperativas. Com a industrialização do milho, em oito anos a renda per capta do município praticamente dobrou. Por conta desse resultado conquistou vários prêmios, inclusive um da Unicef, que o levou a países europeus e asiáticos.
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2.1) A mãe e a primeira-dama coordenam obras sociais.
2.2) É de uma dessas oportunidades a famosa foto, hoje exibida em seu gabinete. No retrato, aparece apertando a mão do presidente Lula, e ao fundo Barak Obama.
2.3) Entrar com detalhes psicológicos da primeira-dama. Ao passar defronte ao Legislativo, imagina-se moradora de um bairro nobre da Capital, de preferência na Zona Sul, à beira do Guaíba. ‘Ser deputado é bem mais importante do que governar um município no cafundó. E vou sair nas colunas socias da Capital, ao invés das publicadas em jornalecos semanais no interior do estado. Com sorte, talvez até consiga sair em revistas de circulação nacional. Vou frequentar as melhores lojas dos shopping centers, assistir aos shows de artistas importantes e ver da primeira fila as peças de teatro com os atores das novelas da Globo’.
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3.1) Na infância, moravam num casebre de madeira e, nas noites de inverno, quando o Minuano soprava gelado, usava folhas de jornal amassado para tapar frestas entre as tábuas das paredes.
3.2) Numa casinha nos fundos do terreno, a mãe e duas amigas "recebiam clientes"
(ISSO É CONTADO PELA MENTE DA MÃE)
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4.1) Estudou com bolsa num colégio de padres, indicado por um monsenhor que aparecia de vez em quando e trazia ranchos, roupas e até eletrodomésticos. Foi o religioso quem deu a eles uma casa ampla e pagou o curso na faculdade de Direito, além das despesas com hospedagem e manutenção durante sua estadia na Capital. A audiência na Cúria é com ele, hoje bispo da região metropolitana. SEGREDOS DO AUTOR

Personagens
Prefeito; primeira-dama; mãe do prefeito; assessor
Cenas c/ flash back, foreshadowing
a) Vem no carro, com o motorista, a primeira-dama e a mãe
b) Rápida audiência com a governadora.
c) Visita à Cúria.
d) Jantar e prêmio no Clube Leopoldina Juvenil
e) SEGREDOS DO AUTOR

O BENEMÉRITO

BR 290. Duas e meia da tarde. O automóvel Vectra prata, modelo Elite, avança veloz pela rodovia. Desliza macio, apesar do asfalto irregular. Cento e sessenta e cinco quilômetros por hora. Na frente, ao lado do motorista, viaja o prefeito. Ele aproveita o trajeto para repassar o discurso que fará logo mais, durante a solenidade de entrega do prêmio que receberá à noite.

No banco traseiro viajam a mãe do prefeito e a primeira-dama. Os compromissos da agenda se iniciam às quatro e meia da tarde. Têm audiência com a governadora. Vão entregar um relatório sobre projetos desenvolvidos com recursos do estado pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania. No encontro também estará o presidente estadual do partido, com quem pretende conversar sobre uma possível candidatura à deputação estadual.

Administra uma cidade de cento e cinquenta mil habitantes, a pouco mais de quatrocentos quilômetros da Capital. É sua quarta vez à frente da prefeitura. Após dois mandatos intercalados, ficou de fora quatro anos e elegeu-se pela terceira vez, reelegeu-se e está no segundo mandato consecutivo. A última eleição foi renhida, disputada voto a voto até o término da apuração.

Na cidade, erradicou o analfabetismo da zona rural, criou o Programa de Saúde da Família no Campo e fomentou a criação de cooperativas, reunindo os produtores da região. Com a industrialização dos cereais, em seis anos a renda per capta do município praticamente dobrou. Por causa desse desempenho conquistou vários prêmios, incluindo um concedido pela Unicef. Graças a essa premiação, obteve reconhecimento nacional, concedeu entrevista no Programa Jô Soares e foi convidado a visitar diversos países nos continentes europeu, africano e asiático.

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O motorista diminui a velocidade do carro ao passar em frente a um posto da Polícia Rodoviária Federal. Pela janela os ocupantes vêem os agentes entretidos com orientações a um comboio de turistas argentinos. Cruzam o posto.

Prefeito consulta o relógio e manda acelerar. Chofer obedece. Pisa fundo e o automóvel começa a ganhar velocidade. Na quarta marcha o motor libera a segunda fase do turbo. O carro dá um solavanco quase imperceptível e dispara. Na quinta já estão a cento e setenta quilômetros por hora. O anti-radar contrabandeado do Uruguai, com sensor afixado no pára-brisa, avisará se houver sinalização eletrônica à frente.

Ao volante está um condutor experiente. Vasconcelos, sargento da Brigada Militar, veterano de caserna, cedido à prefeitura. O município custeia salário e paga função gratificada, além de diárias e benefícios concedidos. É homem de confiança. Cumpre as funções de motorista, segurança e assessor particular. Foi indicado por um ex-governador, para quem prestou serviços na Casa Militar.

Além de entrevistas agendadas em duas rádios da Capital, à noite receberá o prêmio Líderes e Vencedores, oferecido pela Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul e a Assembléia Legislativa. Também irão à Cúria, onde têm audiência agendada com o arcebispo da região metropolitana, velho amigo da família.

01 Fevereiro 2010

AVISO AOS NAVEGANTES!

Abaixo está publicada a primeira versão da nova Crônica de Valadão. Talvez por cacoete do autor, ficou com cara de conto. Melhor assim.

E um aviso aos mais afoitos: a série Valadão nasceu para ser baseada exclusivamente em fatos reais. Na prática, até o momento, apenas uma é totalmente verídica. As demais têm pontos de verdade filtrados pelo autor. No resultado final, TODAS são ficcionais com temperos de realidade.

Outro comunicado importante: agora minha mãe acessa Internet. Por favor, não a xinguem nos comentários do blog.

Boa leitura!

CRÔNICAS DE VALADÃO
Penitenciária Estadual do Jacuí

Ligação não identificada no celular. Valadão abomina esse tipo de chamada. Pode ser operadora de telemarketing, do outro lado alguém que negocia dívida ou vende qualquer coisa. Ressabiado, atende ao telefone. Reconhece a voz. Puta que o pariu! É o Palito.

Disfarça. Trata-se de um amigo que não gostaria de reencontrar tão cedo. Foram parceiros em várias caminhadas, mas faz alguns anos que não têm contato. Por força das circunstâncias, o interlocutor fala de uma cela na Penitenciária Estadual do Jacuí.

Valadão aposentou-se. Não quer envolvimento com ilícitos. Nada de atividade perigosa ou que possa dar errado por descontrole. Pagou a dívida com a sociedade. Dois anos em regime fechado e o resto cumpriu no semi-aberto. Hoje tem carteira assinada, residência fixa. Também vai à igreja e atua numa ONG que reintegra ex-detentos por meio de oficinas profissionalizantes. Atualmente, além de uns baseados, seu único contato com a contravenção é quando frequenta salas secretas em botecos, padarias e agências lotéricas que exploram máquinas clandestinas de bingo e caça-níquel.

Receoso, ouve o que o outro tem a dizer. Para seu alívio, apenas um pedido simples. Por causa da descoberta de um suposto plano de fuga, cuja autoria lhe fora falsamente imputada, Palito perdera por tempo indeterminado o direito às visitas íntimas. Daí pediu o celular emprestado a um companheiro. Outro lhe forneceu o ship.

Ligou, e agora explica a situação. Precisa de alguém confiável para, um dia por semana ou a cada dez dias, verificar como andam as coisas em sua casa. Nada mais. Valadão reconhece sinceridade no relato. Comove-se com o tom de desabafo. Chegou a pensar no pior, mas favor de amigo é sinal de que ainda o consideram. A última coisa que deseja é entrar de otário em roubada, transporte de droga ou coisa pior, mas agora tudo bem.

Não foi preciso negar um favor. Temia que lhe pedisse para ir contra o que acredita hoje em dia. Até missa dominical na paróquia do bairro ele tem assistido. Às vezes não consegue entender o sermão do padre, mas o simples fato de entrar na igreja já lhe causa uma sensação de alívio. Para ele o sacramento da eucaristia equivale a uma troca. O padre escuta durante a semana, no domingo o biscoito desmancha debaixo da língua e segunda-feira começa outra vez. Ciclo interminável. Reservatório atinge o limite, daí vem o sacerdote, a confissão, uma bolachinha consagrada e o pecado novamente.

Atitudes extremas
Três dias após o telefonema, Valadão visita a casa do detento. O endereço ainda é o mesmo. zona nobre de uma cidade vizinha a Porto Alegre. Vai de moto, apesar da chuva iminente. No caminho, recorda os tempos de amanhã incerto, sempre pronto ao revide ou a fuga. Percorre o trajeto entre as cidades e lembra-se de como antigamente as coisas eram efêmeras. Dinheiro vinha com facilidade e era gasto de forma irresponsável, rapidamente. Ainda bem que conseguiu abandonar aquela vida.

Palito, franzino desde a infância, casara-se com uma mulher alta e larga. Loreci, mais conhecida como Shamu, pesava quase cem quilos. O apelido, alusão à baleia Orca de um parque aquático em Orlando, foi ele mesmo quem inventou na década de 80. Com parte do dinheiro logrado em assalto a uma agência do Banco do Brasil no interior do estado, fizeram o passeio à Florida, onde também visitaram as lojas de Miami, o complexo Disney, montanhas russas e parques de animais em Tampa.

Apesar do tamanho e de ser um sacana por vocação, fora do convívio com os amigos Palito era homem violento, intempestivo, capaz de atitudes extremas. Matara mais de uma vez a sangue frio. Da mulher, por ironia, apanhava sem reagir. Porrada na cara, de mão aberta e fechada, na frente de qualquer um, onde quer que fosse e a qualquer hora do dia ou da noite. Acontecia com frequência, sempre que Shamu flagrava uma de suas putarias.

Surpresa
Valadão chega à residência de Palito. Estaciona a moto em frente ao portão. Desliga o motor, desce do veículo, retira o capacete e deixa em cima do banco. Caminha em direção a uma mulher que lava a calçada com mangueira e água. Ela para o que está fazendo e vem lhe atender.

- Pois não?
- Boa tarde! Gostaria de falar com a Shamu. Ela está?
- Quem?
Valadão, confuso, repete a pergunta.
- Gostaria de falar com a Shamu. Ela está?
- Deve haver algum engano.
- Talvez eu tenha errado a casa, faz tempo que não venho, mas era nesta rua com certeza. Por acaso a senhora conhece Loreci, mulher do Palito?
- Quem?
- Lo-re-ci.

Ela começa a rir, ele não entende. Em seguida a mulher atira a mangueira por cima do gradil, dirige-se ao portão, abre e fez sinal para entrar. Ele retorna, pega a moto e empurra para dentro da casa. Ela o espera passar, fecha o portão e caminha pela grama do pátio interno para desligar a torneira. Valadão empurra a moto e estaciona no puxadinho de Brasilit ao lado da casa. Retira a chave da ignição, guarda no bolso da calça, larga o capacete em cima do banco e vai cumprimentar a desconhecida.

Aperto de mãos, beijinhos no rosto, apresentações. Ainda sem entender o que acontece, segue a mulher pela lateral da casa em direção à parte dos fundos. Ao vê-la de costas, faz a avaliação. Baixota e gordinha, mas até que jeitosa. Calca suplex atolada, calcinha minúscula, passo rebolado.

Agulha de tricô
Sentado à mesa da sala, Valadão bebe café solúvel batido com açúcar. E atualiza-se a respeito da vida conjugal de Palito. Loreci morreu. Na tentativa de emagrecer, submeteu-se ao procedimento do balão intragástrico. Não tendo conseguido suportar a fome, introduziu na barriga uma agulha de tricô. Por azar, além de romper a bolsa inflável de silicone, também perfurou uma artéria.

Soraia veio morar com Palito seis meses após a morte da outra. Trouxe duas filhas e um aquário. Presente do pai das crianças, morto pela polícia. E ela também chegou a cumprir temporada no cárcere. Formação de quadrilha e assalto a mão armada. Pilotava um carro de fuga, pneu estourou e o resto não lembra. Quando acordou já estava na ambulância a caminho do HPS, algemada à maca.

Valadão ouve atento. Várias histórias, enquanto experimenta bolo de milho, belisca salgadinhos Elma Chips e bebe Coca-cola. Escuta o que ela tem a dizer. Observa, analisa. Sinais, movimentos do corpo. Leitura de entrelinha nas palavras. Apesar de aposentado, não perdeu o tino do malandro, como ele mesmo define o que considera uma de suas qualidades, que é a capacidade de identificar seus pares. E se os indícios não confirmarem a suposição, para ele o maior argumento favorável à desconfiança é a falta de lógica entre o discurso do amigo Palito, e a prática constatada logo nos primeiros minutos de convivência com Soraia.

Solidariedade
Para justificar o que pretende fazer, mentalmente Valadão apresenta argumentos. O primeiro é que o amigo teve vergonha de revelar o verdadeiro motivo da ligação. Mulher de ficha corrida não precisa ser protegida por ninguém. Se bobear, salvaguarda precisa quem estiver a sua volta. O segundo argumento é que Palito conhece a mulher, deve estar ciente de suas necessidades. E o argumento definitivo é que, para um presidiário, e isso ele sabe por experiência própria, é mais fácil dividir um problema com amigos do que contar com a solidariedade de vizinhos ou desconhecidos. Valadão agora pensa no domingo. O encontro semanal com o padre é na quinta-feira anterior à missa. Hoje é terça-feira, melhor omitir os acontecimentos desta data.

Pensando bem, raciocina, entre o castigo divino e uma represália por negar solidariedade ao ex-companheiro, mil vezes a primeira opção. Além do mais, com essa gente não se brinca. Afinal, quem garante que Shamu, ao invés da versão contada por esta tal Soraia, não foi assassinada e seu corpo talvez esteja enterrado aqui mesmo, no pátio desta casa, cortado aos pedaços?