15 Julho 2009

REPÓRTER MEMÓRIA

Na próxima terça-feira, 21, completo 13,5 mil dias de vida. Nasci no Hospital Moinhos de Vento. Residi nos bairros Menino Deus, Cidade Baixa, Ipanema, Cristal, Centro e hoje estou de volta à Zona Sul. Em Ipanema, morei de 1977 a 1997, e agora de novo faz dois anos.

É um lugar que difere muito do resto da cidade, não apenas pela geografia privilegiada à beira do Guaíba, mas também pelo modo de vida dos moradores. Aqui é um dos portais que dão acesso à Porto Alegre rural, em direção ao extremo sul, até os limites com o município de Viamão.

Já não temos aquele ar de cidade do interior, predominante até meados dos anos 80, embora o bairro ainda preserve resquícios e relíquias, até mesmo de décadas anteriores à referida. Algumas casas de madeira, erguidas na década de 40 para veraneio, sobreviveram ao tempo. Nem todas estão conservadas, mas muitas ainda resistem.

Ser de algum lugar, para mim, não é apenas viver o dia-a-dia. É preciso sentir o clima, conhecer as histórias e tomar conhecimento dos patrimônios material e imaterial da região. Já sei que Porto Alegre passou a existir oficialmente em 26 de março de 1772. Nossa localização é 30º de latitude e 51º de longitude. O território tem 476,3 quilômetros quadrados, a uma altitude de 10 metros acima do nível do mar, com espaços de planície cercados por 40 morros que abrangem 65% de nossa área total. São 72 quilômetros de orla fluvial. Temos mais de 1,4 milhão de habitantes. Somos uma das cidades mais arborizadas do mundo, com mais de um milhão de árvores, 409 praças, reserva biológica, nove parques urbanos e a maior concentração de pássaros do país.

Nesse contexto está inserido Ipanema. Para ajudar a preservar as histórias do bairro, estou empenhado na assessoria de imprensa ao projeto Memorial de Ipanema. É o primeiro memorial de bairro do Rio Grande do Sul, totalmente financiado com recursos privados e apoio institucional da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, por meio da Secretaria Municipal da Cultura.

No post abaixo, reproduzo o release enviado à imprensa.

MEMORIAL RESGATA HISTÓRIA
DO BAIRRO IPANEMA

Exposição permanente. Mostra itinerante. Projeto educacional e, no futuro, a construção de uma sede própria. Estes são alguns dos objetivos do Memorial de Ipanema, que tem curadoria e pesquisa da gestora cultural Michele Kara.

Segundo Michele, que há dois anos dedica-se à pesquisa e formatação do projeto, trata-se do primeiro memorial de bairro da Capital. A iniciativa é sustentável, totalmente bancada pela comunidade, com a ajuda de empresários da Zona Sul. O projeto tem apoio da prefeitura, por meio da Secretaria Municipal da Cultura (SMC).

Campanha – A primeira etapa do memorial foi o lançamento de um site (http://www.memoriasdeipanema.com.br/), no ar desde o início de junho. Além de explicar detalhes do projeto e adiantar algumas das atrações do novo espaço, o site também vai funcionar como instrumento para que os moradores da região participem com doações, e apoiadores tenham visibilidade de suas marcas. “Vamos fazer uma campanha para que as pessoas colaborem com fotos antigas, mapas, documentos, resgate da memória oral e objetos que ajudem a contar a história do bairro”, explica Michele.

Como funciona – A primeira mostra permanente, com data a definir, será montada em espaço localizado na Avenida Tramandaí, 339, bairro Ipanema (ao lado do posto de saúde). Além de fotos antigas, mapas, depoimentos e objetos, serão instalados recursos multimídia para interação dos visitantes com o que está sendo apresentado. Também haverá mostra itinerante e um projeto educacional junto às escolas da região. “Teremos projeções, reproduções em áudio resgatando antigas histórias do bairro”, afirmou a curadora.

O acervo do Memorial de Ipanema já conta com documentos, livros, mapas e fotografias pesquisadas em acervos públicos e pessoais. Os documentos comprovam e relatam detalhadamente o processo de formação do bairro e da região, desde 1832 até os dias de hoje.

14 Julho 2009

CEM ANOS DO CLÁSSICO GRENAL

No próximo dia 18 de julho o maior clássico do futebol gaúcho completa cem anos. No dia seguinte, domingo, Internacional e Grêmio se enfrentam pelo Campeonato Brasileiro 2009. A partida acontece na casa tricolor.

Para celebrar a data, publico foto histórica clicada no Estádio Olímpico, nas quadras que existiam onde hoje fica o gramado suplementar. Não é difícil imaginar que a convivência com esses jornalistas foi má influencia na escolha da profissão.

Na foto que ilusta o post, além do meu irmão e eu, estão alguns craques do time da Rádio Guaíba ... lá pelo meio da década de 70. Em pé: Roberto Villar Belmonte, João Carlos Belmonte, Lupi Martins (in memorian), Lasier Martins. Agachados: Caco Belmonte, Flávio Dutra, Clóvis Rezende e Edgar Schmidt.

12 Julho 2009

NO ORKUT DOS OUTROS AINDA DÓI

Em 28 de novembro de 2006, Rafael Rodrigues publicou no site Digestivo Cultural uma matéria sobre a editora Casa Verde, com destaque para o lançamento do livro “No Orkut dos outros é colírio”. O texto encerra com um questionamento feito a mim.

A resposta é simples. O novo livro está a caminho. É uma narrativa longa, do tipo que alguns costumavam rotular como novela. Ou seja, aquele gênero intermediário entre o conto e o romance. No meu caso, “Segunda-feira” concentra e prolonga um conflito único, cuja intensidade vai aumentando até o final, sempre do ponto de vista da personagem protagonista.

Por que a demora? Não é tão fácil como parece. As cento e poucas páginas que serão lidas em algumas horas levam anos do planejamento à realização, considerando o tempo dedicado ao trabalho braçal, que toma a maior parte de produção da obra.

A editora Casa Verde
por Rafael Rodrigues
Um dos convidados da Bienal do Livro da Bahia, que aconteceu no fim de 2005 em Salvador, foi o escritor mineiro Luiz Vilela. Ele participou do Café Literário, aquela conversa informal entre o convidado e uma entrevistadora. Lembro bem de uma das histórias que ele contou. Seu primeiro livro foi enviado a diversas editoras, que recusaram a obra. Com recursos próprios, publicou o livro, aos 24 anos. Com ele, ganhou seu primeiro prêmio literário. Que quero dizer com isso? Até Luiz Vilela precisou investir, nele mesmo, no início da carreira. E olha só quem ele é hoje...
Atualmente isso é cada vez mais comum. Escritores bancando as edições dos próprios livros, organizando e publicando coletâneas, abrindo pequenas editoras. Uma dessas novas editoras é a Casa Verde. Idealizada em 2004 pela jornalista e escritora Laís Chaffe
....
Primeiro livro individual publicado pela Casa Verde, "No Orkut dos outros..." é também a estréia “pra valer” do jornalista e escritor gaúcho. Digo “pra valer” porque Caco, questão de alguns anos, publicou de maneira independente (quer dizer, mais independente ainda) o "Contos para ler cagando", sua “pré-estréia”, digamos assim.

“Joel” abre o livro, e mostra ao leitor que Caco não está para brincadeira. Joel sai de casa para buscar um remédio para a filha adoentada, que ficou em casa com a mãe. Apenas isso poderia resultar em um belo e trágico conto. Mas Caco deixa a tragédia óbvia de lado e vai além: mostra um homem pobre, alcoólatra e desconfiado da esposa (ele pensa que a filha não é sua, pois “Mariângela tinha nascido branca, de olhos claros”, bem diferente dele), que desvia o caminho do posto de saúde por conta da necessidade financeira e da necessidade física do álcool. Ao chegar em casa, mais tarde do que o previsto, com o remédio, Joel se depara com a verdade que sempre tentou afastar de si. Impotente, nada faz, a não ser entregar-se ao vício.

O conto que dá título ao livro aborda um tema que pouca gente tem noção da seriedade: os efeitos nada saudáveis que o Orkut pode causar em uma pessoa. O narrador descobre, através do perfil da ex-namorada, que ela sempre fora uma desconhecida para ele. Ele admite que monitorou o perfil da ex, diz que parou com isso depois de algum tempo, mas a coisa se torna viciante, e ele volta a procurar o Orkut da ex. Lembrei de "O mito de sísifo" (do conto, não do livro), de Camus.

“Tejada” é outro ponto alto do livro. Começa com a chegada de um homem à uma casa de praia. Ele e a ex-esposa costumavam passar as férias lá, com os amigos. Ele tinha esperança de encontrá-la naquela ocasião para tentar a reconciliação. Ao vê-la de longe, ele parte sem se despedir de ninguém, por um motivo que só lendo o conto para saber...

Disputando o posto de melhor conto do livro estão, além dos já citados, “Chico” (um “conto de formação”, por assim dizer), “Adalgisa” e “A casca do grão cozido”. Este chega a ser engraçado de tão escatológico.

Ao fim das pouco mais de 70 páginas – poucas, infelizmente – de "No Orkut dos outros é colírio", fica aquela sensação de “já acabou?”, e a torcida para que Caco Belmonte não demore a lançar outro livro.

Íntegra da crítica de Rafael Rodriges.

29 Junho 2009

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Parte 1 - Jorge inventou o xibiu

A internet é um veículo sem precedentes, considerando as possibilidades de alcance da mensagem. O jornal impresso, por exemplo, tem uma tiragem diária e a partir dela é possível mensurar a audiência, usando a fórmula do número chutado que se inventa como padrão para cálculo de leitores por exemplar. As mídias eletrônicas, por causa dos institutos de pesquisa, também são passíveis de auditoria em termos de ouvintes e telespectadores por minuto.

Terra de ninguém - Na web é fácil estimar a audiência de um conteúdo autêntico, gerado e controlado pelo autor. Estranho é descobrir para onde vai esse conteúdo quando alguém divide o todo e atira pedaços ao vento. Não chega a ser a síndrome Martha Medeiros, que reclama de textos roubados e outros literariamente pobres cuja autoria lhe é atribuída. O que um autor de ficção nunca imagina é o tamanho da distância que o conteúdo percorre quando alguém resolve, por conta própria, repassar uma informação retirada da rede. Mais inusitado ainda é tomar conhecimento da utilidade e da variedade de aplicações que o texto ficcional pode ter.

Censurado para menores – No conto Adalgisa, reproduzido em sites e portais literários, mal publicado em “Contos para ler Cagando” e depois impresso em versão definitiva no livro “No Orkut dos outros é colírio”, a história narrada aborda a descoberta da sexualidade e as primeiras aventuras de um adolescente que gosta de meninas. Ao escrever belas cenas de amor e sexo, de vez em quando uma curra, Jorge Amado imortalizou o xibiu. Para mim, autor estreante, restou o hímem rompido.

No site chamado Yahoo! Respostas, uma adolescente faz perguntas sobre sexo. Quem responde, supostamente médico ou alguém habilitado na área de Saúde, indica como leitura ilustrativa justamente a primeira versão capenga do conto Adalgisa, e no final ainda dá crédito ao autor. Segundo o Yahoo!, portanto, sou autoridade em cabaço. Não acreditas?

Confere a íntegra da bizarrice.

E G O T R I P
O mundo a seus pés

A primeira impressão é a que fica? Talvez. Pior ainda é quando um parecer de avaliação utiliza diferentes pesos e medidas. Em terra firme, não há como medir distância e velocidade calculando nós e milhas náuticas.

O que eu sou, aos quase 37 anos? Considerando a tabela de valores que alguns utilizam, é bem provável que eu seja muito pouco. Como jornalista, para ter valor, decerto hoje eu deveria estar apresentando o Jornal Nacional. Como escritor, para ser levado a sério, talvez eu já devesse ter vencido o Nobel de Literatura.

O período que passei em rádio e jornal, os prêmios que conquistei desde os tempos da faculdade, não devem ter importância nenhuma. Como assessor de imprensa, ter atendido um governador, três deputados, um secretário de estado e uma vereadora na Câmara Municipal, além de nunca ter ficado desempregado desde que me formei, também não importa.
Será que nada disso importa, para alguns, porque apesar de tudo eu não tenho um patrimônio para ostentar meu sucesso e mostrar a todos que venci na selva capitalista? Não tenho dúvidas que sim, para essas pessoas, nada disso importa se não houver retorno financeiro imediato.
Hoje em dia ninguém sonha
em ser Nelson Rodrigues ou Jorge Amado?
Meu objetivo é escrever ficção, meu ganha-pão é o mal remunerado trabalho como jornalista. Na carreira de escritor, que é um trabalho para toda vida, considerando minhas tabelas de valores, e elas são as mesmas utilizadas pelas pessoas que sabem a dificuldade de ser um autor de ficção no Brasil, estou muito distante dos rótulos de acomodado e sem ambição.
Se eu fosse um merda, meu nome jamais teria saído nos jornais quando lancei meu livro, nem seria convidado para entrevistas em rádio e tevê. E também não estaria preparando um novo livro, que apenas no planejamento da estrutura, forma e conteúdo, levou quase dois anos. Escrever ficção não é fácil, precisa ter o dom da palavra. É um processo sofrido, dolorido e solitário. Existem leitores contumazes, verdadeiros ratos de livraria que, com certeza, já leram muito mais do que eu e têm inúmeras histórias para contar, mas não saberiam como fazê-lo. E assim é com 99,9% das pessoas.
Para alguns, aparentemente, não há mérito em ser lembrado ao longo do tempo, não é importante deixar vivo o pensamento e as idéias através da palavra, “falando” para gerações de leitores e entrando na mente de pessoas que a gente nunca viu. Ser lembrado como artista não é importante. E as pessoas que não têm paciência e esperam resultados imediatos, talvez nunca alcancem o que isso significa. Questão de valores e visões de mundo.
Fazer o quê? Nada, além de aceitar e respeitar as opiniões contrárias. Cada um com seus valores. Para mim, fazer uma carreira como escritor é bastante ambicioso. Espero que o talento seja compatível à pretensão.
O que está reproduzido abaixo foi retirado do antigo blog. É uma análise de um conto de minha autoria, feita pelo escritor que aqui será chamado Senhor X, que é doutor em literatura e deve entender alguma coisa do assunto. Eu sempre releio o que X escreveu, e isso não me deixa esquecer quem sou e a que vim.

Análise e interpretação de quem estudou o assunto
A partir da internet, de onde surgi, inúmeros contatos foram realizados e alguns acabaram se transformando em projeto. Ganharam vida fora do mundo virtual. Minha ida à FLIP, o lançamento de “Contos para ler cagando”, a breve participação na última Feira do Livro de Porto Alegre, o surgimento da editora Casa Verde, o lançamento de FATAIS, algumas entrevistas e vários contatos com outros autores e muitos acadêmicos, sobretudo estudantes de jornalismo e letras.
O mais recente destes contatos realizados pela internet foi transcrito abaixo, de forma resumida. O autor do e-mail é o Senhor X *.
“Conheci teu site e teus textos, através de um e-mail que o Marcelo Spalding me enviou divulgando o projeto Fatais. Na verdade, já tinha lido teus minicontos naquela exposição que a AGEs organizou na Casa de Cultura Mario Quintana,da qual fiz parte também. Bom, o negócio é que gostei muito do teu jeito de escrever. Direto, porrada, retratos cruéis e vivos da uma realidade poucas vezes abordada, acho, na literatura produzida por aqui.
O Faraco talvez faça alguma coisa na direção deste mundo que tu resolveu, escolheu, sei lá, ficcionalizar, e que faz com maestria. Teu conto "Joel" é de uma dor contida extrema. A virada no último parágrafo que desatina o leitor, fazendo-o perceber a história sobre um prisma totalmente diferenciado do que o narrador vinha construindo. Bah, Caco, é dor plena, desacorçoa, sacode a gente. Função maior, creio, da Literatura. Da boa Literatura. Aquela com L maiúsculo e que tu tá fazendo bem demais, cara. Contos como Tejada, Beijinho do tio, entre outros, são exemplos do que falo.
É isso. Sou escritor também, mas sobretudo leitor e quando me deparo com textos fortes e emocionados, embora aparente uma crueza e uma sordidez sem tamanho, não consigo ficar calado, tenho que fazer ouvir o eco do que me provocaram.”

RESPONDI ASSIM:
“Quero te dizer Muito Obrigado, humilde e sincero. Tuas palavras demonstram que o caminho está certo. Vale a pena todo esforço e dedicação, apesar da falta de tempo para escrever e da ausência de retorno financeiro. Não é por isso que escrevemos, tu bem sabes. Importante é saber que o eterno aprendizado é longo, e árduo. Na literatura e na vida também. É o que penso. Grande abraço ! CACO”

TRÉPLICA:
“De fato, Caco, saber, para quem escreve, que suas palavras ficcionais e seus mundos inventados são capazes de ecoar naquele que nos lê, saber também que nossas palavras são capazes, depois de soltas, de chegar sabe-se lá onde, em quem, é sempre alegria e expectativa. Pelo menos comigo é assim. Por vezes, um e-mail, um torpedo, uma carta, um breve comentário em um lugar qualquer, dando conta do quanto nossa possibilidade de real tocou este ou aquele ser, sempre é bom quando bate à porta de nossa emoção, meio de surpresa. Com teus textos, foi assim, como já te disse. Desta forma, nada tem a agradecer, companheiro, ao contrário. Se há alguém merecedor de agrado é tu, que me possibilitou mergulhar em teus mundos tão cheios de emoção e desacomodamento. Obrigado.”

*Senhor X é bacharel em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, e licenciado em Letras - Língua Portuguesa e Literatura, pela Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras - FAPA/RS; é Mestre e Doutor em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e professor de Literatura numa universidade.

26 Junho 2009

Sete perguntas e respostas sobre
oficinas de criação literária

Carolina Petry Matchenbacher estuda jornalismo na PUCRS. Ela fez contato pelo Orkut, depois encaminhou perguntas por e-mail. Trata-se de um trabalho sobre oficinas de criação literária.
Reproduzo abaixo perguntas e respostas. Na foto que ilustra o post estão Gabriel Moojen e Luiz Antonio de Assis Brasil, além de mim. Foi no lançamento do livro Contos de Oficina 10, em 1993.

Nome: Caco Belmonte (Ricardo Villar Belmonte).
Profissão: Jornalista.
Cidade onde mora: Porto Alegre.
Cidade onde ocorreu a oficina literária: Porto Alegre; Parati (RJ).

01) Como tu descobriste as oficinas literárias?
Em 1991, aos 19 anos, meu irmão (também jornalista: Roberto Villar Belmonte) me apresentou a uma ex-aluna da Oficina de Criação Literária da PUCRS. Neifla Maria Rigon frequentou a sexta edição do curso. Ela explicou que, para ingressar, era necessário enviar três textos que seriam avaliados pelo Assis Brasil e a professora Regina Zilbermann, se não estou enganado.

Fiz os textos, enviei e fui selecionado. Eram nove candidatos por vaga. Na décima edição da oficina, também participaram Amílcar Bettega Barbosa, Gabriel Moojen e Berenice Sica Lamas, além de outros que ainda devem estar escrevendo, mas não tiveram a mesma sorte ou competência dos citados acima. Até aquela edição, ninguém com menos de vinte anos fora selecionado. Eu recém havia ingressado na Famecos. Na verdade, naquele final de ano passei no vestibular e entrei na oficina.

02) Por que participaste de uma?
Entrei para aprender as técnicas que eu já sabia existirem, conseguia identificá-las durante as leituras, mas não sabia como eram aplicadas durante a construção do texto, nem que poderiam servir para reforçar o conflito e a trama. Enfim, antes da oficina da PUCRS eu era quase um ignorante literário, mas já era um leitor atento.
03) Quando participaste?
Respondido na número 1.

04) Como funcionaram as oficinas das quais tu pasticipaste?
O oficina da PUCRS funcionava, não sei agora como está, em dois módulos de seis meses cada. Eram estudados forma e conteúdo: construção das personagens, vozes do discurso, tipos de narrador, uso do tempo e espaço, etc... A oficina ministrada pelo amazonense Milton Hatoun, durante a II Festa Literária Internacional de Parati (Flip), foi sobre o gênero romance e teve a duração de apenas três dias. Um aperitivo, se comparado aos 12 meses de estudo na PUCRS. Era por convite, e participaram vários autores estreantes do todo Brasil. Do Rio Grande do Sul, além de mim, também estavam Cardoso, Carol Bensimon, Milton Rodrigues e Marcelo Benvenutti.

05) Quantas pessoas participaram contigo?
PUCRS (12 pessoas); Flip (mais de 30).

06) O que tu mais gostaste nas oficinas?
Para mim, o mais importante foi aprender a desmontar o texto, identificando as técnicas utilizadas pelo autor. Sem esse aprendizado é impossível escrever ficção.

07) Teve alguma coisa que não gostou?
No meu caso não houve nada que eu não gostasse, pois estava no aprendizado do ofício para o qual me propunha.

25 Junho 2009

O retorno


Faz quase dois anos que nada publico aqui. Após o fim das atividades em "Cacos - O ofício solitário do autor desconhecido", criei "O Exu Literato" e fiz as primeiras postagens. Houve um início empolgante, com exercícios de criação e até jornalismo literário.

Desde o começo do primeiro blog, em outubro de 2003, até a última postagem antes desta, em julho de 2007, muita água deslizou pelo cano. Quase seis anos desde o fim da virgindade na Internet, e praticamente dois anos em silêncio absoluto. Naquele tempo, colunistas e jornalistas importantes não escreviam para o meio digital por intermédio do blog, nem contratavam estagiários para alimentá-los à exaustão. Via de regra, ainda hoje, temos três tipos principais de blog assinado por escritor ou jornalista: informação, criação literária e umbigo.

Não quero fugir à regra, e também não tenho competência para inventar uma terceira via mais criativa. Por isso volto em silêncio, sem alarde ou spam. Aos que chegaram até aqui, sejam bem-vindos de volta. Àqueles que nunca estiveram, fiquem à vontade.

O que está publicado abaixo é um trecho da novela Segunda-feira, ainda em fase de edição e com lançamento previsto para dezembro deste ano ou março do ano que vem.

Caco Belmonte

Trecho inédito da
novela "Segunda-feira"

04h50

Ainda está acordado. Mônica dorme. Não houve penetração durante o sexo, apesar das reiteradas investidas de Jorge. Suas tentativas, entretanto, resultaram numa rápida e eficiente sessão de sexo oral. Em princípio ela não queria, mas cedeu, com certo ar de tédio até, apesar dele não ter percebido o automatismo na parte mecânica do ato. Afinal, que custa ceder a um capricho?

Não obteve nenhuma informação relevante. Ela adormeceu e ele ficou sabendo apenas que o dinheiro seria entregue à tarde, depois das 15h. Isso significa que não poderá fazer pessoalmente os pagamentos. Mônica ficou incumbida da função. No mesmo horário ele estará acompanhando a deputada numa agenda com a governadora do Estado, que será convidada para abrir o evento patrocinado pela ONU.

Lá fora a chuva continua. Se estivesse num dia normal, o martelar da água na persiana seria um poderoso sonífero. Jorge não consegue descansar a mente e novas hipóteses afloram. Teria ela cedido para que não desconfiasse de alguma coisa? Uma rápida felação era o mesmo que revogar temporariamente a cláusula do sexo vetado em dias de labuta? Estaria ela fazendo em casa o que fazia no trabalho e tudo no mesmo dia, ao contrário de antes, apenas para que ele não desconfiasse que voltou ao antigo ofício?

Deitado, vira-se na cama pela enésima vez. O sono foge. Não consegue encontrar uma posição confortável. Ouvir o ressonar tranquilo de Mônica é perturbador. Parece que ela não se importa com as contas vencidas, ou a ameaça da imobiliária. Os pagamentos atrasados, sempre correndo atrás da máquina, todo mês no vermelho ou pedindo dinheiro emprestado. Faz cinco meses, no mínimo, que não conseguem pagar em dia as faturas. Desde que acabou o dinheiro guardado por Mônica. O valor recebido em trinta dias de trabalho como garçonete, fora gorjetas, é a quantia equivalente a quatro clientes. Trocando em miúdos, o mesmo dinheiro que costumava obter em apenas dois dias.

E ainda tem os filhos. O dinheiro enviado a eles é bem menos do que a ex-mulher reivindica. A vaca trabalha, recebe pensão do falecido pai, poderia manter a casa sozinha e a ele caberiam despesas como educação, saúde, roupas, mesada dos meninos. Ainda bem que não sabem quanto recebe no frila com a deputada, nem que está para ser nomeado num cargo de confiança.
Perdeu o sono. Resolve fumar outro cigarro. Senta-se na cama. Calça o par de chinelos e se levanta devagar. Sai do quarto e fecha a porta. Não quer barulho ou luminosidade atrapalhando o sono leve de Mônica. Em cima da mesa da sala, apanha o maço de cigarros e o isqueiro. Abre a janela, acende um cigarro. A neblina espessa cobre os últimos andares dos prédios mais altos. Chuva recém parou, não há vento e o calor continua. Em pé, debruçado na janela, observa lá de cima a solidão das ruas desertas.

12 Julho 2007

Hoje à noite