01 abril 2017

ENTRUDO

Feriadão de Momo. Eleutério Antônio perdeu a chance de ir ao camarote na Sapucaí. Nunca apreciou a arte popular, jamais pulou o Carnaval em blocos de rua ou clubes sociais. Este ano mudou. Veio convite à empresa, único motivo para circular entre as celebridades no Rio. Porcaria de mulherzinha ciumenta. Não entendeu a situação do diretor-presidente. Ele, o fundador. Amargou falência, enxotado da última sociedade. Aos pinotes saiu em busca do investidor misterioso que aportou capital no produto mercadológico de sucesso imediato, idealizado como infalível, justamente pelo efeito prometido e o largo espectro de aceitação entre homens e mulheres de todas as faixas etárias acima dos dezoito anos. Prêmios em salões de marketing ajudaram a consagrar o rótulo. Foi difícil encontrar alguém certificado disposto a chancelar a formulação produzida em laboratórios improvisados, remetida aos magotes para envasamento numa empresa do ramo cosmético, pequena concessão que não vem ao caso. Graças a amigos nos órgãos governamentais, obteve celeridade no tramite do calhau burocrático de certificações requeridas à liberação das vendas por telemarketing. Mais da metade do valor agregado refere-se a tributações de todos os níveis. Exclusivamente o telefone, volume de ligações comissionado pela companhia. Pulo do gato é a propaganda no futebol. Em todo o estado, consumidores alcançados por ondas de frequência e amplitude moduladas, irradiadas desde as grandes emissoras da capital. Discrição, entrega na porta, milhares de pedidos por semana. No embalo das bebidas energéticas surgiram os elixires e pílulas à base de extratos naturais. Raízes, ervas amazônicas com potencial de estimular a libido. Marcam presença na grade esportiva das rádios AM, os programas independentes nos canais de tevê a cabo. Considerando o número de clientes fidelizados, Eleutério deduz o índice de supostos impotentes que frequentam arquibancadas, cadeiras, camarotes em estádios e arenas. Talvez exista outra explicação e o sucesso provenha mesmo das visões oníricas que deram origem a tudo. No sonho ele conduzia uma carroça rústica equipada à moda cigano, lá pelos idos de 1820, riscando trilhas entre cidades da Banda Oriental sublevada contra o domínio português, que a tornara Província Cisplatina e subtraíra seu gado para favorecer nossas charqueadas e impulsionar a pecuária gaúcha. O alicate de arrancar dentes era ganha-pão, mas o elixir secreto também rendia uns cobres. A beberagem surgia em garrafinhas de duzentos mililitros. O rótulo sem nome estampava um asno de ouro zurrando sob a lua prateada. Noutras incursões envergava trajes monásticos, peregrino através de brumas no medievo europeu, ofertando indultos e relíquias que afirmava terem vindo da terra santa pela mão dos cruzados.

Doralice embarcou a contragosto no exagerado veículo Hammer. Tem horror a espalhafato e o marido faz questão de enfiar aquele trambolho em pleno engarrafamento da freeway. As desvantagens do horário, impossível argumentar. E ainda bebeu destilado antes de sair. Tornou-se frequente isso. Doses a partir das onze horas da manhã. Chamar à razão é falar às paredes. Desde que começou a multiplicar dinheiro em progressão aritmética tornou-se arrogante, manias de grandeza, destrata as pessoas por qualquer motivo.  Proprietários no condomínio de luxo em Atlântida Sul. Cismou que odeia Tramandaí, Imbé; praias de pobre e remediado, respectivamente. Veraneavam nos municípios e agora não prestam. Os familiares dela os aguardam no entorno da plataforma de pesca. Esculachou a tradição cultuada desde os anos sessenta, quando a parentalha lotava o velho casarão de madeira avarandado no imenso terreno arenoso repleto de casuarina e gramíneas com roseta, hoje repartido entre os herdeiros e novas casas. Palavras horríveis atiradas ao léu. “Teu cunhado jornalista um morto de fome, o franqueado da sorveteria italiana é homossexual enrustido, os três sobrinhos maconheiros depravados, as sobrinhas legítimas umas cretinas rebolando de fio dental atrás de noivo rico, a adotada mais ligeira deu uma chave de buceta no filho do ex-deputado, conselheiro perpétuo no Tribunal de Contas”. Na altura do pedágio em Osório o bate-boca incendiou. As crianças se estapeando à vontade no banco traseiro: maiorzinho tentando enforcar o mediano com a faixa do cinto de segurança e o pequerrucho gravateando o grandão, solidário ao mano em desvantagem. Trajeto entupido de hora e meia levou duzentos minutos para ser percorrido, sem contar o trecho da rodovia estadual, após a bifurcação rumo às praias. Na orla surgiu o drama do estacionamento. Quinze minutos dando voltas até encontrar um espaço em que coubesse o mastodonte. Terminou mal encaixado na brecha disponível, obstruindo parcialmente uma garagem de veranista. 

Sandoval caminhou desde muito longe pela beira da praia, antes de parar no quiosque do compadre junto à plataforma. Suado, meio zonzo, artrite massacrando as articulações, varizes explodindo nas pernas, ardência nos calos dos pés e os joanetes bem encaixados nas deformações do velho par de tênis com as solas esburacadas. Dor filha da puta, fome do caralho. Pensou em roer um milho verde e desistiu, o dente frouxo pode cair a qualquer momento. Pescador matreiro, faz bicos no verão para reforçar o orçamento. Depois que terminam as férias não sobra viva alma, última chance de faturar algum extra é o Carnaval. Na cidade entupida com o trânsito caótico, chega a faltar luz por excesso de consumo e a água potável desaparece das torneiras. Neste primeiro dia do feriadão, esposa e filhos esparramados ao longo do trecho que cobre sessenta quilômetros na faixa de areia. Fora da temporada as mulheres têm ocupação nas faxinas e os homens no serviço geral; tratamento em piscinas, jardinagem, consertos, ajustes, pinturas e pequenas obras, incluindo elétrica ou hidráulica. Gente boa acostumada a mourejar. Apesar do horário avançado em plena tarde, estava com pouca sorte e não vendera nenhuma das bolas de plástico que trouxera a quinze reais. Arrependeu-se por não ter pego o carrinho com os bonés masculinos, as cangas e saídas de banho para mulheres. No momento aceitaria dez reais para garantir o rango. Pastel, empada de galinha e refrigerante. Faz tempo que passou a hora do almoço, café e pão com margarina não deram conta. Estômago vazio, úlcera mal curada. Mês passado receberam a boa notícia. O mais velho aprovado no vestibular de educação física, ingressou por esse sistema de quotas que ele não entende direito, mas acha bom e vem a calhar. Bisneto de escravos, ninguém dos seus jamais estudou em faculdade. Farão grande esforço para manter o rapaz no pensionato. Despesas cotidianas, material de estudo. Amigos rifaram dois bezerros e uma vaca de leite, justamente o assunto que proseava no quiosque do compadre quando surgiu o bacana do carrão mal estacionado no outro lado da rua. O mesmo sujeito que cruzou agorinha em direção à areia, bateu boca com a esposa e as três crianças emburradas. Gente do dinheiro tem mania de gritar. Ouviu o pai esculachando o menorzinho, justo no momento em que o coitado tentava desgarrar-se do grupo, talvez interessado nas espigas de milho, não deu para saber, o casal seguiu adiante chispando fogo pelas ventas e agora o homem já está voltando com o menino chorão de arrasto, saltitante, descalço na areia em brasa. “Quanto essa porra? ”  Sandoval se fez desentendido. “Quanto essa porra? ” Pensou no filho e a universidade. Respirou fundo, antes de informar o valor da mercadoria. Momentos depois, caminhando pela areia, a enorme rede com as bolas de plástico equilibradas sobre o ombro, roendo uma espiga de milho noutra mão, imaginou quantas unidades precisaria vender para comprar o utilitário guiado pelo ricaço. Noves fora, abandonou a matemática complicada no instante em que o dente mole caiu.

01 março 2017

A LÍNGUA EM FORMA DE U

A vizinha de cima me trocou pelo corretor de seguros do andar aqui embaixo. Sujeitinho fabricado em linha de montagem. Barba e bigode do século das luzes apagadas. Coque samurai haraquiri. Aconteceu porque não consigo dobrar a língua em formato U. As outras sempre pediam o convencional. Relativa criatividade, variações do mesmo tema. Nunca imaginei fazer aquilo. Jamais provei a coisa, digamos ... mais picante. Alguns consideram nojento. Muitas pessoas se apegam ao detalhe. O prazer esquisito. Tive receio. Quase me submeti. O tempo inteiro pensando em eventual contratempo escatológico. Durou quatro meses. Falávamos o trivial no condomínio. Dissimulados ao topar no elevador e áreas comuns. Vigilância eletrônica. Por falta de recursos o prédio fez o investimento incompleto e as câmeras foram instaladas em desacordo com o plano inicial, deixando pontos cegos nas escadas e corredores, por onde esgueirava-se de manhã cedo, ardilosamente após as sete e meia, horário em que o marido largava as crianças na escola e seguia rumo ao trabalho. Julguei-me capaz de executar os movimentos. Tive nojo e consenti. Impossível dobrar a língua do jeito indicado. “Assim NÃO”, reprovou minhas tentativas defronte ao espelho. Eu não pude quebrar a língua. Naquele momento as outras posições malucas que fazíamos deixaram de ter importância. Sei que anda relando no corretor, o apartamento dele é abaixo do meu. De manhazinha escuto os barulhos característicos. Reconheço as vozes. Tuque-tuque-tuque, a cama socando as paredes com violência. Hoje somos condôminos da mesma edificação. Como se nunca houvesse acontecido. E o securitário, um grande filho da puta, outro dia mostrou a língua virada no elevador. O azougue bulia a criança taluda no colo da mãe, a vizinha. 

24 fevereiro 2017

EZEQUIEL


Terça-feira acordei com a macaca. Vieram duas frases arranjadas em sentença. Precisava rabiscar o dito num papelucho. Embarcar no ônibus à esquina de casa. Linha T4 rumo a Igreja São Jorge. Nunca colocara os pés na ermida do bairro Partenon, mas o templo destacava-se ao passar defronte, então universitário da PUCRS, aluno da oficina de criação no início dos anos noventa. Hoje o local exibe portentoso viaduto em três níveis, instalado na esquina das avenidas Aparício Borges e Bento Gonçalves, dando a falsa ideia de que a irresoluta equação do trânsito será respondida por fórmula mágica, coisa que sabemos impossível, porque as pessoas amam entupir as ruas com automóveis. 

Voltando à igreja, aproveitei o momento transcendente que causou o misterioso deslocamento e, intuitivo, desci do ônibus na parada defronte à Academia de Polícia Militar, onde funciona o Colégio Tiradentes em que fui mau aluno. Sempre avesso ao marche-marche dos que obedecem sem questionar, rejeito de antemão a tirania do idiota. Um asno, mesmo com divisas, jamais poderia comandar. Quem andou em tropa sabe a que me refiro. Saudoso liceu das fardas azuis. No intervalo do almoço campeávamos, peleando atrás dos pavilhões, série contra série. Gostava de encarar os valentões mais graduados. Às vezes avançavam em dupla. Zaz. Vupt. Zapt. Ploft. Desabava um nocauteado. Perdão, fulaninho, “não foi de propósito” que o pé te acertou a queixada. Respeitadas as regras do jogo, azar de quem levasse a pior. Trocando em miúdos, acredito, venceu o burro tisnado; hoje ombros estrelados a comandar pelotões, talvez amassar a bunda em escritórios burocráticos. Todos da época devem estar aposentados, muitos antes dos cinquenta anos e alguns com pouco mais de meio século. As regras do jogo.

Dali caminhei abaixo, fluindo pela avenida repleta de casas brigadianas, a maioria em prédios caindo aos pedaços, beirando o cortiço. Também arruinaram o centro de compras que vendia a preço módico às famílias de policiais militares. Outra tristeza, desolação de cidade fantasma, o deprimente picadeiro sem os cavalos a trotar no exercício da equitação outrora premiada, orgulho esvaído da briosa, despedaçada, sucateada pelo tempo e o reincidente descaso governamental. 

Adiante, na esquina que leva ao presídio urbano, nossa bomba-relógio maior, policiais militares em treinamento simulavam bloqueios de trânsito. Silvo breve, silvos longos. Dezenas de recrutas posicionados na calcada da recém extinta Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas, a Corag, que o atual governo satanizou alegando desnecessária, embora uma ausência lamentada por pequenos e obscuros escritores como eu, além de outros com maior calibre e alcance. Fizemos uso da editora. Essa gente descartável, o lixo pensante que não contribui para gerar riqueza, propina e lucro. Logro do lobo louco. 

Excesso de dinheiro nunca foi problema. Ruim é quando a balança enverga. O mundo gira à feição dos motores. A culpa não é do automóvel. Saudemos o avanço tecnológico que vem a galope e poderia ser benéfico a todos. Sejamos honestos, ao dizer que as armas nunca mataram. Somos malvadeza até os ossos. Pouco a pouco nos tornamos piores. O mundo não precisava ser do jeito que o fizemos. Morra com urgência quem estiver em desacordo.

Então, naquela manhã desloquei à igreja em que jamais colocara os pés. Não houve empecilho, nenhum transtorno a caminho. No templo de São Jorge me esgueirei à direita e sentei na última fila. O cantinho junto à parede. A meu lado a sequência de vitrais alusivos aos profetas. Apocalípticos alguns. Para além da toada sacra, música de fundo no sistema de som, reparei a arrumação das coisas, a hierarquia dos altares e a minudência canônica da liturgia secular. “Agnus dei, qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem”. Entrei no quadrilátero sem o rito da persignação. A Força Maior habita em mim, pertence a todos, portanto somos o verdadeiro templo a ser frequentado e isto passa, necessariamente, pelo desprendimento e o abandono da arrogância. Ridículo, ousarmos pensar que temos o controle absoluto sobre as coisas. Nossas vidas, por exemplo.

Comovente ir e vir. Fiéis de joelhos no local em que se depositam os pedidos de graça. E aqui nos encaminhamos ao desfecho do arrazoado. Momentos antes de levantar em direção à urna das urgências indulgentes, de relance percebi quem era o personagem estampado no painel a meu lado. Mais de três metros de profeta. Ezequiel, o vitriólico, fonte corrosiva atribuída a mim. Antes de ir embora, coloquei o manuscrito da mandinga na caixinha de Jorge. Rubriquei em livro meus garranchos de canhoto, nalguma página do dia 21 de fevereiro de 2017. Quando o sacristão abrir a urna, caso o faça com frequência, encontrará a mensagem que será prontamente descartada. Mais uma, dentre tantas redigidas por “desequilibrados em busca de auxílio”. Desrespeitosos os que têm a certeza inabalável. Donos da verdade, indubitáveis cretinos, julgam o outro pelo fedor de suas próprias vísceras. 

Boníssimos religiosos. Esqueceram o latim e foram abandonados pela verve possessória. Agostinho nunca mais. Saudoso padre Vieira, a prosa inflamada cuspindo verborrágicas labaredas que deixavam em brasa os ouvidos dos canalhas. Terra rebelde, sempre rebelada, não é por acaso que os alienígenas nos evitam. Morreriam esfolados, caso viessem. Tomaríamos suas naves e invadiríamos seus planetas, depois roubaríamos as riquezas subterrâneas e, possivelmente, iríamos profanar o sagrado e barbarizar geral, currando mulheres e surrando os inocentes. Empalaríamos as crianças. 

Eis o homem. Animal por excelência, condenado à solidão do espaço longínquo. Soarão alarmes por todo o universo no momento em que alcançarmos o aparato necessário à efetiva conquista do espaço. Serão alertadas as raças humanoides. Mobilizadas para que fujam, enquanto houver tempo, pois os terráqueos intentarão contra os planetas pacificados. Existe alternativa; não sejamos moscas de um dia, apesar do cheiro irresistível emanado desde a bosta fumegante. Encerro com a transcrição do papelucho enfiado à urna de São Jorge: “Os textos não me pertencem. Sou a torneirinha de plástico por onde fluem as águas acessíveis a todos e que poucos sabem verter. Caco Belmonte. Exu Literato. Artifex. Simia dei. Serpens mercurii.”

20 fevereiro 2017

ARROGANTES ALIENÍGENAS ARVORADOS


Me pergunto, deduzo e avalio possibilidades. Seria desastroso, MM, o corte em tua mão a tolher os movimentos imprescindíveis à arte. Recordei o calendário que recebi para 2017. Reproduções de acervo. Uma entidade beneficente. Quadros pintados com os pés, à boca. Lindos de fazer pensar em algo maior. Frida superou o acidente. Vou usar aquelas imagens para conectar. Momento de agradecer a Disneylândia em que vivo, apesar dos contratempos comuns a todos no mundo insano. Brasil tencionado, a incerteza batendo às portas. Fiquei viajando e percebi, não sei aonde estava com a cabeça quando te repassei a bendita plaqueta. Souvenir de Memphis. O rei Aaron. Tralhas à deriva no mar do subconsciente. Além da consciência vigilante. Motivação intuitiva, decerto. Noves fora, o item a quem considera Elvis acima de todos. “Essa menina enxerga o mundo enviesado”. Bingo! Também materializo coisas que vêm do outro lado. Os domínios da matéria escura. Nosso ouro não é o vulgar. Ovos de monstro precisam eclodir. Desse jeito e pronto, foda-se o mundo. Veio à tona outro dia. Um animal sagrado, o dragão fêmeo com a patinha machucada.  Fisioterápica. Àquela hora, apressada debaixo da soalheira. No verão a temperatura aos pinotes. Teu jeitinho de andar, sabes? Poesia em movimento. Às vezes desajeitada e sempre graciosa. “Justinho você”. Saudoso Vinícius de Moraes. Aonde vai, pensei. Tanta pressa. Decerto é o namorado furibundo, egoísta, cretino, não pode esperar um minuto. Tsch, tsch, tsch, que desperdício. Sacrilégio. De um flashback noutra história o elogio inestimável. Produzo sensações com o poder invisível. Não me dou conta no momento em que escrevo. “Teu vocabulário me deixa ... ui, que loucura isso”. Para além da concupiscência, as palavras ao pé da letra. Rédea solta vou a trote. Acordar os mortos e fazer pensar os vivos. Particularidades da arte. O mundo segundo MM, a linguagem exclusiva. Me flagrei pensando. Isso não é bom, concluo, ao lembrar que testemunhei o equívoco de GP por MM. Triste suspiro, a doença obsessiva. Mesmo entre criadores, a mente vibrando acima do mundo superficial, não quer dizer que haja, obrigatoriamente, afinidades além de estética e artística. Canções do Elvis à vida enorme. Não é para qualquer um. Discernir e evitar o ridículo. A personagem de Goethe em desatino. “O sofrimento do jovem Werhter” foi publicado e, pasme, houve chusma de enamorados enlouquecidos por toda a Europa. Os amorosos suicidas causaram grande comoção, à moda dos que se mataram nos Estados Unidos, anos 30, após a audição radiofônica da novela Guerra dos Mundos, de Orson Welles, que chegou a ser preso para explicar o furdunço causado desde a imensa criatividade (os marcianos invadiram o planeta!).  Aquele artista, com certeza, provocou enorme rebuliço. Corre-corre, gritaria esganiçada. Moçoilas escabelando-se pelas ruas. Velhotas saltando para a morte no alto dos arranha-céus. O triste é que ninguém escreve cartas hoje em dia. Antigamente, MM, os idiotas enviavam cartas perfumadas. Gente à toa. Proust e Balzac. Recentemente outros pretenciosos. Arrogantes alienígenas arvorados. Tu deves ter colecionado álbuns repletos. Papéis de carta, talvez heranças de família. Aqui já ultrapassei os limites do bom-senso, mais de cinco mil e setecentos caracteres para dizer que penso em ti. Serei ridículo ao fazê-lo? Desculpe, se as palavras constrangem; contudo, se o estranhamento resulta da leitura (sem conflito não existe literatura possível), significa que não fracassei como escritor. Ao menos isso! Para bom entendedor o silêncio. Nada diga em resposta, se não houver algo a ser dito. “A única coisa que me mantém de pé é a certeza da alma imortal. Eu me recuso a reduzir o ser humano à melancolia do cachorro atropelado. Que pulha seríamos se morrêssemos com a morte. Sem alma não se chupa nem um chica-bom. Mais importante são os ovários da alma. Os verdadeiros órgãos genitais estão na alma. É o amor que impede o homem de trotar pela avenida Presidente Vargas, montado por um Dragão da Independência. O sujeito que nega a existência de Deus devia ser amarrado num pé de mesa e beber água, de gatinhas, numa cuia de queijo Palmira. A desgraça de Satã é a sua impossibilidade de amar. O abominável Pai da Mentira não gosta de ninguém. Daria a metade de suas trevas por uma única lágrima de amor”. Ensinamentos do mestre Nelson Rodrigues. De minha parte o exercício. Verve açulada por musa. Guarde a sentença. Daqui ao fim dos tempos, até o último dia da criação, não haverá outro que encontre melhores palavras e saiba arranjá-las com a eloquência misteriosa exigida a quem, por ventura, reconheça a divindade encarnada e ouse lhe falar.

01 fevereiro 2017

MYSTERIUM


Prosa poética evocada do depósito inconsciente traz os monstros que fingimos inexistir. Quisera ser como tu, agilíssimo. Quisera seguir adiante sem olhar para trás, apesar do que disse ou senti, como se o imaterial mais arraigado fosse uma roupa qualquer, a pele de cobra que se desprende ao natural. Teus aforismos recorrentes maculam a alma. Tudo passa? Antes de hoje e amanhã nunca houve ontem? Queria dividir esses três tempos, ao invés do perene em que vivo, onde enxergo tudo ampliado e destoo. Queria me deletar, fugir e errar inadvertidamente, outra vez e sempre errar nas duas acepções. O errante e o errado. Queria me reinventar e passar por cima de tudo. Ainda digo o que sinto. Não te ilude com a literatura. Ela não vai interromper os sonhos conscientes. Bruxarias quânticas e poderes inatos, mediúnicos, dos quais fugias como o diabo da cruz. Muito cuidado, suplico às forças que te conduzem. Venham em meu auxílio no entendimento do mal-entendido. Faço minhas as palavras que jogaste ao léu. “Nunca tive vocação para o amor mal resolvido sem soluços. Acredito em suspiros, mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis. Tenho medo de altura e não evito os abismos”.

Maria profetisa, a resposta da tua pergunta sobre os sonhos exige uma explicação detalhada. O anímico (alma, espírito) manifestado de forma onírica (sonhos). Falarei de mim e sobra para ti, uma vez que és a outra parte do processo. Aprecio os textos. Sou inapto a digeri-los com isenção. Incapaz de te desconectar por completo, minha ascese limitada não logra êxito. Desconhecia o significado das ocorrências por erro de interpretação. Reiteradas vezes o fracasso, até o dia em que memorizei as peças construí a habilidade necessária para remontar o quebra-cabeças. Naquele momento, exaurido de buscar explicação material para o intangível nos padrões do mundo físico, admiti a veracidade das evidências. O mistério da inata habilidade de conectar. Não é por acaso a escrita muito louca, Maria profetisa. Também és capaz de perceber nuances e energias além dos cinco sentidos. Forças que permeiam a realidade entendida como única possível na visão do materialismo científico. Para eles, a mente é apenas o resultado do trabalho da matéria orgânica com seus fluídos e eletricidade desencadeados por um coração que bate sem outro propósito além do ato mecânico, da mesma forma que a independência do subconsciente é tratada como o monturo de lixo individual e coletivo. O imponderável é rejeitado. Não comprovam a inexistência do fenômeno e deduzem que seja improvável. Decretam a improbabilidade baseados no fato de que a transcendência lhes é impossível, portanto deverá sê-lo a todos os que vivem no planeta. 

Ao contrário de ti, ostensiva na acepção própria da palavra, minha bruxaria alquímica ocorre num nível mais sutil, por meio do pensamento e a intuição. Nada vejo ou escuto, mas apreendo entendimentos alheios (dos vivos) e capto forças (espíritos) que se conectam com as minhas redes energéticas, traduzindo em minha voz (texto) aquilo que desejam comunicar. Assim funciona o Exu Literato. Surgiu como brincadeira literária. Logo percebi a realidade materializada nos textos, acessível a quem sabe ler e está aberto ao novo, ao imaterial.

Voltando aos sonhos, esclareço. De longe observo tuas opções conscientes. Por óbvio elas me excluem e nos mantém afastados. Tua vida noutro lugar. Livre-arbítrio decretou. O paradoxo da realidade onírica e a consciência metafísica do bicho subatômico transcendente. O dois que vira três, o três que alcança o quatro e juntos trazem sete para evocar o sagrado guardião de fronteiras. Às vezes não acontece nada extraordinário, se pensas em sexo ou orgasmo múltiplo. Boa parte das ocasiões apenas estamos juntos. A energia que depreende desses encontros é balsâmica. Desperto inexplicavelmente e o sentimento permanece semanas, meses, até que um novo sonho acontece e tudo se renova. Como sabes, me relaciono bem com outras pessoas, mas ficou aquela sensação de coisa incompleta. Eu vivo à espera do milagre, a teu lado ou com alguma criatura que te exorcize 

Outro dia sonhei que fazias nova mudança de endereço. Lugar que nunca estive. Não queria ser visto, me escondi e olhei a coisa acontecer. Enxerguei o caminhão-baú e os pertences descarregados. Nisso uma entidade encostou a meu lado. Solicitou que te deixasse. O pensamento em ti, a impossibilidade evidenciada. Para surpresa, os sonhos tiveram continuidade. Percebi a natureza da fraude. Não eram as tuas entidades. Algo se fez passar por outra coisa e nenhum sonho foi interrompido. A via tem mão dupla, Maria profetisa. Sinceridade liberta e permita viver. Não voltas atrás no que foi decidido. Consagras à matéria todas as conquistas deste mundo. Na zona de conforto esqueceste a vida enorme. Parece que nada resta e a coisa te consome. No avesso das palavras, distância e tempo se confundem. Lutarei pelo que acredito. Vou em frente quando o pensamento não refletir a reciprocidade. Um passo adiante, não estou no mesmo lugar. 

01 janeiro 2017

TEJADA


Tens razão. Viajei à praia no final do ano esperando te encontrar na casa. Era uma chance para nós, como nos velhos tempos. Ninguém falou que tu irias, nem o contrário. Uma certeza inexplicável me fez largar tudo e partir, na esperança de tentar uma reaproximação ou até mesmo propor que nos reconciliássemos. 

Não comentei nada a respeito com ninguém. Teria pouco a dizer sobre nós àquela altura. Ainda hoje não consigo entender o que houve e porque estamos separados, se todos achavam que iríamos acabar como dois velhos burgueses à beira da praia: eu pescando e tu fazendo palavras cruzadas, embaixo do guarda-sol, com filhos e netos à volta. Para onde foi aquele ímpeto que nos consumia, exigindo a presença um do outro?  

A casa estava vazia quando cheguei. O zelador abriu o portão. Fez uma cara esquisita ao me ver passando. Deve ter estranhado eu sozinho, com a velha bolsa preta da Adidas e o porta-malas abarrotado de carne e cerveja. Naquele primeiro dia fiquei à volta da piscina, até o final da tarde. Depois fui à praia. Fiz o mesmo trajeto de sempre, pela curva do rio, onde passam os barcos de pesca. Sentei naquela pedra em que a gente parava e fiquei olhando a água, exatamente como tu fazias, esperando a passagem do boto e a correria dos pescadores, atirando a tarrafa em busca dos peixes que ele persegue. Depois me achei ridículo e doentio, repetindo sozinho as mesmas coisas que fazíamos juntos e imaginando um recomeço, como se a visita àqueles lugares fosse uma espécie de mandinga ou prova de fé.

Ter ido sem convite ou aviso não me pareceu indelicadeza, nem incômodo, embora tenha percebido que alguns ficaram surpresos ao me ver, como se estivessem constrangidos com a minha presença, ou soubessem de alguma que até então eu desconhecia. Depois, a casa ficou cheia e tudo parecia ter voltado ao normal, exceto pela tua ausência. 

Não sofri nenhuma desfeita, nem ouvi qualquer tipo de grosseria. Ao contrário, fui tratado como se ainda fosse da família. O único inconveniente era o marido da tua prima. Tomou todas e resolveu me alugar na noite anterior a tua chegada. Teve a cara de pau de recomendar cautela e sugerir que não me surpreendesse, se por acaso te encontrasse mudada. Não dei bola, óbvio. O cara é mesmo bebum e ninguém nunca o levou a sério. 

Tuas irmãs, sim, pareciam solidárias comigo. Me olhavam sempre de canto, fazendo cara de piedade. Exatamente como tu, quando encontrou aquela cadela no meio da rua e resolveu trazer pra dentro de casa, independentemente de qualquer argumento contrário. Aliás, um dos teus sobrinhos chegou a comentar sobre nosso cusco, o verdadeiro, e de como ele se enfureceu depois que a gente separou, mordeu tua mãe e hoje está praticamente fora de controle, preso no canil. 

Tinha apostado naquele final de ano na casa. Estarmos juntos outra vez poderia reavivar alguma coisa, desfazer a má impressão dos últimos tempos, apagar o rancor encruado. Talvez pudesse até redimir nossos erros, trazendo de volta a paz. Eu nunca mais sacrificaria nada por causa do trabalho, prestaria mais atenção nos detalhes e jamais esqueceria o que fosse importante, como fiz no dia do nosso aniversário. Esqueci, como também não liguei para desejar boa sorte na defesa mais importante da tua carreira, que acabou inclusive definindo para melhor a situação financeira lá em casa, naquela época. 

Eu me preparei para o feriado, apesar de tudo. Depois de meses, considerando que nunca brigamos de forma violenta, inapelável, pensei no retorno como uma questão de tempo. Nós chegamos a almoçar duas ou três vezes, numa delas fomos pra cama e nunca deixamos de falar ao telefone. Além disso, a boa recepção das tuas irmãs e dos nossos amigos pareceu um indicativo bem realista, como se aquela certeza inexplicável não tivesse sido mais uma das minhas intuições pífias.  

Ter ido embora antes da virada do ano, acredite, não foi esquisitice. Verdade que saí para comprar cigarros e desapareci, com a roupa do corpo e o celular desligado no porta-luvas. Minha atitude intempestiva, enigmática, não dá direito às pessoas acharem que enlouqueci. Também não foi de propósito que aconteceu. Problema é que te vi no armazém do Tejada, junto com teu namorado, exatamente na hora em que fui comprar a maldita carteira de cigarros. Percebi que vocês recém haviam chegado na cidade. Ainda bem que não me viram. Nem imagino qual teria sido minha reação. Preferi entrar no carro e fugir. Não do teu namorado, que é bundão e talvez nem reagisse. O que me deixou perplexo foi aquela barriga de grávida, sempre negada a mim, durante tantos anos. Hoje em dia, de tudo que vivemos, guardei apenas uma gaveta cheia das tuas calcinhas. O resto das coisas atirei pela janela. 

09 dezembro 2016

DOCUMENTÁRIO


O produtor do filme veio falar conosco. Estão levantando tudo sobre o caso do pai Timbó. Morte bárbara. O pênis e os testículos nunca foram encontrados. Houve versões paralelas. Uma das teses, reforçada pela ausência dos órgãos genitais, apontava um crime relacionado à magia negra e coisas do gênero. A outra linha de investigação sustentada pela polícia admitia uma hipótese passional, considerando a notória virilidade do babalorixá. Vingança por traição, disseram faz quinze anos. 

Minha esposa costumava visitar a casa de umbanda com certa regularidade, até quatro vezes por semana. E não estava só. Vinha gente da capital atrás de uma cura milagrosa. Doenças do corpo e da alma tratadas com receitas que resultavam em beberagens e infusões de ervas ou unguentos malcheirosos. Eram os espíritos, segundo ele, responsáveis por todas as fórmulas e medidas. 

Incrível como as coisas se alteram repentinamente e nos obrigam a uma adaptação nem sempre tranquila. Na faculdade, cheguei a idealizar o jornalismo sério, investigativo, ouvindo todos os lados da notícia. Sonhava com uma profissão que fizesse diferença, como no caso daquele escândalo que derrubou o presidente norte-americano. Engraçado como na juventude a gente pensa em bobagem. A utopia do jornalismo imparcial deixou de existir no momento em que herdei a emissora de rádio do meu avô. Também na vida nem sempre dizemos a verdade. Importante é construir uma versão sólida para os fatos. A maioria das pessoas não questiona o noticiário. Ninguém suspeita do que o jornal diário publicou na véspera. 

Duvido que esse documentário alcance a verdade. No máximo, teremos a visão do diretor prevalecendo sobre todas as coisas. Ele dará forma àquilo que os outros enxergam, da maneira como deseja mostrar, escolhendo enquadramentos e ampliando vozes supostamente elucidativas, após anos de dúvidas que nem a polícia dirimiu. 

Se as pessoas ouvidas no filme realmente soubessem o que aconteceu naquele dia, se tivessem certeza de alguma coisa, teriam ajudado a polícia nas investigações, e o crime estaria resolvido. No que diz respeito a mim, não há o menor receio quanto aos mortos. São os vivos que me preocupam. E aquele bruxo nunca me enganou. Não é porque morreu que vira santo na minha igreja. Durante meses, o filho-da-puta, tomou dinheiro da minha mulher, que na verdade era o meu, prometendo uma “cura” espiritual. Para os que conviviam na intimidade, como eu, era impossível notar qualquer alteração nela que justificasse sequer uma visita ao posto de saúde da esquina. Na dúvida diante do provável engodo, avaliei a possibilidade de que ela realmente estivesse com algum tipo de enfermidade. 

O poder da informação é capaz de mudar o rumo das coisas. Nesse documentário, por exemplo. Durante uma hora e meia, eu e minha mulher conversamos com o diretor do filme e sua equipe. Gravamos em casa. Ao final, talvez sejam aproveitados dois ou três minutos de cada um, ou nem isso. O que eles nunca vão saber é que mantive em segredo a informação que poderia fazer diferença. Decerto esse tal cineasta deve ter pensado que sou idiota e manso, como os outros maridos das clientes do falecido Timbó. 

Hoje em dia, minha esposa e eu frequentamos a Igreja Universal. 


*Escrito em 2005. Publicado em 2006 no livro de contos “No Orkut dos outros é colírio”. Editora Casa Verde.

10 novembro 2016

DOZE PAICAS


01
Véspera do anúncio oficial. Morales encerrou a reunião com os editores do jornal e foi direto pra casa. Faltavam quinze minutos para a meia-noite. No caminho, enquanto dirigia, procurava a maneira menos traumática de encaminhar as deliberações recém-aprovadas pelo Conselho. Nos últimos meses, desde que fora nomeado presidente da comissão, responsável pela reformulação do parque gráfico, todos os momentos do seu dia eram dedicados ao trabalho. Naquela noite, não encontrou a mulher na sala, assistindo à tevê. Não a encontrou em nenhum lugar da casa.

02
Nogueira passou boa parte da noite acordado, pensando. Clareava o dia quando adormeceu. Perdeu a hora, chegou atrasado no jornal. O resto da manhã parecia interminável. Pela primeira vez, desde que assumira o cargo de editor-chefe, desejou nunca ter saído da redação. Salário diferenciado e status de diretor, para ele, não estavam compensando a parte administrativa do ofício, repleta de burocracias, rotinas maçantes e incomodativas. A partir do momento em que começou a ascender na empresa, afastou-se dos amigos e os antigos colegas passaram a tratá-lo de maneira esquisita, meio artificial.

03
Cícero saiu de casa logo após o almoço. Desde 1976, quando começou a trabalhar no jornal, cumpria todos os dias a mesma rotina, de segunda a sábado. Era um dos raros profissionais que ainda utilizava papel, lápis e régua de paicas para diagramar o jornal e elaborar o planejamento gráfico dos cadernos e das editorias. Foi o responsável pela montagem de algumas capas históricas. Primeira visita do Papa ao Brasil, agonia e morte de Tancredo, impeachment de Collor.

04
Morales avisou as secretárias: não atenderia ninguém nos próximos vinte minutos. Acabara de chegar de uma reunião-almoço com o governador, junto com executivos de outras empresas de comunicação. Trancou-se no escritório, fechou as cortinas e iniciou um ritual que vinha se tornando cada vez mais frequente. Do bolso interno do impecável traje italiano, retirou um pequeno embrulho de papel alumínio, redondo, preso por um clipe. Abriu com cuidado, apesar de trêmulo, deixando cair sobre a mesa uma pedrinha branca, com pouco mais de um grama de cocaína. De uma gaveta, retirou um cartão de crédito vencido e começou a raspar a pedra, pacientemente, esfarelando a droga. Com o cartão, juntou o conteúdo desprendido, dissipou os grânulos e afinou o pó. Ao final, esticou quatro grandes carreiras, retirou da carteira uma nota de cem reais, enrolou um canudo e cheirou.

05
Até aquele momento, nenhuma alteração fora anunciada em caráter oficial. Nogueira almoçou sem vontade, sozinho, no refeitório da empresa. Notou que alguns olhavam desconfiados, cochichavam. Outros fingiam comer de forma displicente. Terminou o bife de fígado acebolado, dispensou o sagu da sobremesa e foi direto ao caixa. Guardava o troco na carteira quando percebeu o editor de esportes junto à porta de saída. Tentou evitá-lo, simulou pressa. O homem veio atrás. Perguntou sobre os ajustamentos, se estavam definidos e quais seriam. Nogueira desconversou.

06
No ônibus, a caminho do jornal, Cícero ia conversando com o cobrador, velho amigo de infância e vizinho do bairro. O homem comentou que estava pensando em financiar um computador para o filho. Cícero explicou que não entendia muita coisa de computadores, tinha dificuldade até em mexer no telefone celular, mas poderia informar-se no jornal. O cobrador agradeceu. No resto do trajeto, discorreu sobre as habilidades do filho, e de como o guri aprendeu a navegar na internet, utilizando o equipamento e a conexão do cunhado rico.

07
Sentado atrás de sua mesa, agitadíssimo, fumando um cigarro atrás do outro e bebendo litros de coca-cola, Morales passou a tarde reunido com diretores e acionistas. Nos minutos de intervalo entre cada audiência, foram nove ao todo, urinava no banheiro anexo e pedia ligações para casa. Não conseguiu falar. Ninguém atendeu. O mais entediante no trabalho eram as estatísticas, as projeções e os relatórios de desempenho. Difícil explicar. Resultado é a palavra de ordem.

08
Carregando um envelope de papel pardo, tamanho ofício, Nogueira deixou a sala refrigerada. Queria ter conversado mais com o Morales. Precisava entender os objetivos para conseguir explicar as razões. Tentou fazê-lo compreender que havia um clima tenso no ar, as pessoas estavam desconfiadas e até o ritmo de trabalho fora alterado. Voltou para a redação e começou a chamar um por um. Dentro da sala envidraçada, enquanto ia falando com os funcionários relacionados na lista, podia enxergar a expressão das pessoas do outro lado. Surpresa, contrariedade, indignação. O resto da tarde foi maçante. Teve azia, dor de cabeça e uma violenta sudorese.

09
Vibrou o celular no bolso da calça. Cícero acabara de entrar na sala envidraçada. Reconheceu o número de casa no visor do aparelho. Pediu licença para atender. Soube que o assunto era importante. Estava em reunião, mandou que ligasse mais tarde. A mulher insistiu, ele desligou. Desculpou-se com o chefe, aceitou o cafezinho com adoçante e começou a ouvir o longo discurso. O problema, no seu caso, é que a nova rotativa seria conectada diretamente à redação, eliminando por completo a diagramação em papel. O editor-chefe ainda lembrou os cursos de reciclagem custeados pela empresa, que ele não fez, mesmo sabendo que um dia o Parque Gráfico seria reformulado. Cícero, quando deixou a sala, percebeu que era observado pelos colegas. Caminhou de volta a sua mesa, sentindo o celular vibrando no bolso da calça. 

10
Morales conseguiu chegar mais cedo, depois de muito tempo. Procurou no quarto, na casa toda. A mulher não estava. Praguejou, amaldiçoou e teve um súbito achaque de fúria. Rasgou roupas, esvaziou vidros de perfume, quebrou o salto dos sapatos de grife. Em seguida, pegou o telefone sem fio e tentou ligar reiteradas vezes. O celular dava sempre na caixa-postal. Depois de um tempo, quase resignado, bebeu um litro de uísque e adormeceu na sala, esperando.

11
Nogueira dormiu mal. Teve pesadelos, acordou diversas vezes ao longo da madrugada. À noite, quando chegou do trabalho, foi direto ao banho. Depois, tomou um prato de sopa e se deitou. Não percebeu as intenções da mulher. E ela ainda fez questão de dizer, mais de uma vez, que as crianças estavam ferradas no sono. No outro dia, quando acordou, estranhou o azedume logo de manhã cedo. Achou que fosse uma crise de TPM e tratou de sair de casa. Ofereceu-se para levar as crianças no colégio. Chegou cedo na redação. Em frente ao prédio do jornal, encontrou um piquete do Sindicato dos Jornalistas, com carro de som e uma deputada do PC do B discursando contra os “barões da imprensa neoliberal”. Na entrada foi vaiado por ex-funcionários. Sindicalistas e o pessoal que entrou no aviso prévio.

12
Cícero simulou tranquilidade. Deixou a sala envidraçada e retomou as tarefas que largara antes de ser chamado. Percebeu o olhar insistente dos colegas, misto de pena e solidariedade. Um repórter fotográfico e o editor de polícia vieram conversar, os dois na mesma situação. Soube da manifestação que estavam preparando para o dia seguinte. Em casa, preferiu não dar a notícia, por enquanto. Reclamou do cansaço, declarou mal-estar. A mulher não insistiu, apesar da urgência. Naquela noite, dormiu sem dizer à esposa que acabara de entrar no aviso prévio. Também não ficou sabendo que a neta de quinze anos estava com dois meses de gravidez.


*Conto publicado originalmente em livro. Coletânea FATAIS, editora Casa Verde; 2005.

10 outubro 2016

A ÚLTIMA VOLTA DO PARAFUSO


Ronaldo estava no Rio de Janeiro quando recebeu a notícia. Ligaram do escritório. Foi um choque para todos. Testemunhas disseram que a BMW desgovernou-se numa curva, subindo a Serra, a uns dez quilômetros de Gramado. Quis saber dos filhos. Eles ainda não tinham recebido a notícia. Antes de desligar o telefone, pediu que a secretaria providenciasse uma passagem no primeiro voo disponível. Naquele momento, sozinho no quarto do hotel, desabou num choro convulsivo.

Maria Elisa passou os últimos dias falando sobre o evento em Gramado. O contrato com a fábrica de calçados tirou a agência do vermelho. Depois do lançamento da nova sandália, com direito a merchandising na novela das oito, poderia manter a dupla de criação e saldar a dívida no banco. Na volta, pretendia conversar com o marido. Prometeu a Tânia que logo resolveria aquela situação.

As pessoas costumavam dizer que eles formavam um casal simpático, bem-sucedido. Volta e meia apareciam nas colunas sociais, frequentando os lugares da moda e as festas mais cobiçadas. A publicitária das campanhas premiadas e o dono da maior revenda de automóveis, com filiais em várias cidades do país. Dez anos de casamento, três filhos e duas crises, com direito a separação e retorno arrependido. Nos últimos tempos, desde que Maria Elisa descobriu o interesse por outras mulheres, Ronaldo tentou mudar.

Três dias antes do embarque para o Rio, sabendo que a mulher pretendia viajar no final de semana, ofereceu a BMW. Maria Elisa estranhou. Ninguém nunca estava autorizado a dirigir os carros do marido. Aceitou a oferta, depois de muita insistência. Não queria magoá-lo, antes daquela conversa inadiável. Ronaldo, detalhista, levou o carro na oficina de sua revenda. Mandou que os mecânicos fizessem uma revisão completa no automóvel. Fiscalizou o serviço, conferindo de perto cada um dos itens verificados.

Uma equipe de televisão, que também estava indo para Gramado, foi quem avisou as emissoras de rádio. A notícia logo chegou a Porto Alegre. O carro passou reto numa curva e bateu de frente num Scania. O caminhão vinha descarregado, descendo a Serra.

Centenas de pessoas estiveram no velório, antes da encomendação do corpo, reservada aos familiares e amigos mais chegados. Maria Elisa sempre falou que gostaria de ser cremada, e que suas cinzas fossem jogadas em alguma praia do Atlântico. Houve um momento, breve e muito intenso, em que Ronaldo e Tânia choraram juntos, abraçados.

Naquele dia, enquanto o corpo estava sendo cremado, padre Borges reuniu os familiares do ente querido e procurou dizer as últimas palavras de conforto. Em sua prédica, deu ênfase e atenção especial ao viúvo, que achou uma pessoa meio perturbada. Na verdade, percebeu que Ronaldo passou o tempo inteiro segurando um objeto metálico, comprido, do tamanho de uma caneta, muito parecido com um parafuso. Notou, achou estranho, preferiu não comentar. Cada louco tem sua mania.

Ronaldo se desfez do objeto metálico quando deixou o crematório. Atirou pela janela do carro, a caminho de casa. Chegou a ouvir o tilintar do metal repicando no asfalto. O objeto permaneceu no chão por vários dias, rolando de um lado para outro na avenida. Foi encontrado por um carroceiro de quinze anos, que o recolheu e guardou numa latinha de Nescau, junto com duas pilhas médias e um canivete enferrujado. À noite, no casebre em que morava com a mãe e três irmãos, consertou a porta da geladeira utilizando o parafuso da rua. A parte de cima, meio chata, ficou uns cinco centímetros pra fora. Naquela parte, gravada numa ranhura, em letras minúsculas, podia ser lida a inscrição BMW – Z8ALC.  

Conto publicado originalmente em livro (coletânea FATAIS; ed. Casa Verde, 128p).

21 setembro 2016

VERBO AD VERBUM

Um novo livro está a caminho do esquecimento. Narrativa longa. Prefiro não falar em romance ou novela, porque no país de não-leitores algumas pessoas desconhecem o significado. No Brasil a nomenclatura remete a histórias de amor (romance) e teledramaturgia (novela), ao invés de gêneros literários. Prosa?

Não é fácil. Artesanato da palavra. Mais de cem páginas. Anos de trabalho braçal, desde o planejamento à execução. Do suco ao bagaço. Extrair óleo nobre do caroço. Garimpo, ourivesaria. Respeito à matéria-prima!

O ofício solitário - Me policio, todas as vezes em que sinto necessidade de escrever ficção. É uma urgência fisiológica que se impõe. Surge no minuto seguinte àquilo que podemos traduzir como insight, centelha divina ou qualquer outra definição que associamos à necessidade de formatar uma ideia vaga, ululante na mente do autor.

Uma vez tomada a decisão de usar a “droga” e ministrar o remédio de forma sistemática, cotidiana, tudo o que vem a seguir é sofrimento. Gestar e parir o texto é doloroso, exige dedicação monástica. O autor, solitário, delirante na clausura de sua mente, chafurda o barro da criação e faz nascer a luz, onde antes havia apenas escuridão.

Falando assim parece missão divina, nobilíssima, concedida aos eleitos. Atualmente, vivendo o mundo digital e a era do pensamento multimídia, da comunicação instantânea, pensar e fazer literatura como antigamente, “preto no branco”, pode ser considerado insanidade. Doença incurável. Sabedor de tudo isso, o Exu Literato continua cada vez mais profícuo. Evoluo com urgência.

A roda girou - Nos últimos anos, pequenas editoras têm conquistado prêmios e reconhecimento literário. Por consequência, maior espaço nas prateleiras das grandes livrarias e posições destacadas nos aplicativos e portais que comercializam e-book. Não é uma tendência, mas a consolidação do trabalho pioneiro que se iniciou lá atrás. Final dos anos noventa, virada do século. Fanzine digital via e-mail. CardosOnline era o “papiro” que espraiava a literatura fora do circuito.

Do “e-zine” à saudosa editora Livros do Mal. Primeira centelha, farol nesta pampa remota de poucas luzes. A Casa Verde é outro exemplo. Em 28 de novembro de 2006, Rafael Rodrigues publicou no site Digestivo Cultural uma matéria sobre a editora, com destaque para o lançamento do livro “No Orkut dos outros é colírio”. O texto encerrava com um questionamento a mim.

A editora Casa Verde
por Rafael Rodrigues

Um dos convidados da Bienal do Livro da Bahia, que aconteceu no fim de 2005 em Salvador, foi o escritor mineiro Luiz Vilela. Ele participou do Café Literário, aquela conversa informal entre o convidado e uma entrevistadora. Lembro bem de uma das histórias que ele contou. Seu primeiro livro foi enviado a diversas editoras, que recusaram a obra. Com recursos próprios, publicou o livro, aos 24 anos. Com ele, ganhou seu primeiro prêmio literário. Que quero dizer com isso? Até Luiz Vilela precisou investir, nele mesmo, no início da carreira. E olha só quem ele é hoje...

Atualmente isso é cada vez mais comum. Escritores bancando as edições dos próprios livros, organizando e publicando coletâneas, abrindo pequenas editoras. Uma dessas novas editoras é a Casa Verde. Idealizada em 2004 pela jornalista e escritora Laís Chaffe  ....

Primeiro livro individual publicado pela Casa Verde, "No Orkut dos outros..." é também a estréia “pra valer” do jornalista e escritor gaúcho. Digo “pra valer” porque Caco, questão de alguns anos, publicou de maneira independente (quer dizer, mais independente ainda) o "Contos para ler cagando", sua “pré-estréia”, digamos assim.

“Joel” abre o livro, e mostra ao leitor que Caco não está para brincadeira. Joel sai de casa para buscar um remédio para a filha adoentada, que ficou em casa com a mãe. Apenas isso poderia resultar em um belo e trágico conto. Mas Caco deixa a tragédia óbvia de lado e vai além: mostra um homem pobre, alcoólatra e desconfiado da esposa (ele pensa que a filha não é sua, pois “Mariângela tinha nascido branca, de olhos claros”, bem diferente dele), que desvia o caminho do posto de saúde por conta da necessidade financeira e da necessidade física do álcool. Ao chegar em casa, mais tarde do que o previsto, com o remédio, Joel se depara com a verdade que sempre tentou afastar de si. Impotente, nada faz, a não ser entregar-se ao vício.

O conto que dá título ao livro aborda um tema que pouca gente tem noção da seriedade: os efeitos nada saudáveis que o Orkut pode causar em uma pessoa. O narrador descobre, através do perfil da ex-namorada, que ela sempre fora uma desconhecida para ele. Ele admite que monitorou o perfil da ex, diz que parou com isso depois de algum tempo, mas a coisa se torna viciante, e ele volta a procurar o Orkut da ex. Lembrei de "O mito de sísifo" (do conto, não do livro), de Camus.

“Tejada” é outro ponto alto do livro. Começa com a chegada de um homem à uma casa de praia. Ele e a ex-esposa costumavam passar as férias lá, com os amigos. Ele tinha esperança de encontrá-la naquela ocasião para tentar a reconciliação. Ao vê-la de longe, ele parte sem se despedir de ninguém, por um motivo que só lendo o conto para saber...

Disputando o posto de melhor conto do livro estão, além dos já citados, “Chico” (um “conto de formação”, por assim dizer), “Adalgisa” e “A casca do grão cozido”. Este chega a ser engraçado de tão escatológico. Ao fim das pouco mais de 70 páginas – poucas, infelizmente – de "No Orkut dos outros é colírio", fica aquela sensação de “já acabou?”, e a torcida para que Caco Belmonte não demore a lançar outro livro.