23 Novembro 2009

O PIJAMA DO GOVERNADOR
Crônicas de praia

Minha estréia numa beira de praia não é a mesma ocasião registrada na memória como primeiro encontro com o mar. Fotografias imortalizaram impagáveis cenas da família Belmonte, e amigos da imprensa, num veraneio em Capão da Canoa. Aconteceu no distante verão de 1976.

Por ser filho de cronista esportivo, me acostumei a marcar a passagem do tempo por Copa do Mundo e Olimpíada. Naquele ano, quando eu tinha recém completado quarenta e oito meses de vida, o grande evento foram os jogos olímpicos de Montreal. A edição anterior, realizada em Munique no ano do meu nascimento, foi justamente a que acabou manchada pelo atentado terrorista contra os atletas da delegação israelense.

Não lembro o que acontecia quando foram registradas as imagens, reveladas em retratos hoje amareladas pelo tempo. Recordo de cenas não imortalizadas, mas que os mais velhos também se lembram, e invariavelmente se assustam quando ouvem meus relatos a respeito. A boa memória é virtude que me acompanha desde sempre.

Não preciso de registros fotográficos para lembrar que, naquele verão, nosso guarda-sol ficava junto ao da família de Lauro Quadros. E no mesmo acampamento praiano também bronzeava-se o jornalista Antônio Britto. Sim, ele mesmo: porta-voz da agonia de Tancredo Neves, ex-ministro da previdência e ex-governador do Estado.

Lógica de criança
Guardo boas lembranças do Britto amigo da família, com quem anos mais tarde trabalhei como jornalista, no final do seu mandato à frente do Piratini e também em duas campanhas eleitorais (1998-2002). São recordações que diferem muito daquela imagem satanizada construída habilmente pela oposição durante seu governo.

O ex-governador jogava minigolfe conosco. À noite, vestia pijama azul de bolinhas brancas estampadas. Modelo exatamente igual ao que meus pais compraram para meu irmão Roberto e eu nas Lojas Renner. Casualmente, no mesmo prédio que meses depois seria palco de um trágico incêndio de grandes proporções. Naquele fatídico dia 26 de abril de 1976, foram contabilizados 41 mortos e mais de 60 feridos.

Sempre curioso, gostava de acompanhar a conversa dos adultos, e certamente não entendia muito do que diziam. Daqueles encontros resultou a inclusão de uma palavra em meu vocabulário infantil, graças ao jornalista Antônio Britto, que a utilizava com freqüência. Os adultos, lógico, adoravam quando me fazia de palhaço e arremedava o futuro governador. “Evidentemente”, era o que eu repetia à exaustão, e todos adoravam a blague.

Ainda mais engraçado teria sido uma resposta que eu dera, quando minha mãe certa vez resolveu reclamar do barulho produzido por uma metralhadora de brinquedo. A réplica, presente do Britto no Natal de 1975, acendia uma luz vermelha e matraqueava de forma irritante e ensurdecedora. Intimado a deixar de lado o brinquedo enlouquecedor, prontamente argumentei. “Se faz barulho e incomoda, porque deixaram o Britto me dar de presente?” Por óbvio, meu argumento foi vencedor e pude seguir disparando rajadas em lúdicos vietcongues.

SOPA DE TATUÍRA
Crônicas de Praia II

Verão de 1978. Florianópolis, Santa Catarina. Canasvieiras, Jurerê e Praia do Forte. Ao contrário do que parece, as memórias mais antigas e lúcidas não foram gravadas no litoral norte gaúcho. Passadas mais de três décadas desde aquela viagem, ainda consigo simular sensações de olfato, audição, textura e paladar, como o sabor da exótica sopa de tatuíra.

Acampar era moda na época, e vários equipamentos para campistas começavam a surgir no mercado. Desde barracas e acessórios, passando por reboques e trailers de vários modelos e tamanhos, até o cobiçado motorhome Turiscar equipado com o robusto e confiável motor Mercedes-Benz.

A família Belmonte viajou num Passat TS 1.6, marrom escuro cor de telha. Na estrada, devia ser estranho ver-nos passar, porque puxávamos um reboque verde-limão. E a mãe preparava lanches, garrafas térmicas com água gelada e refrigerante. Os adultos fumavam no carro e meu pai respeitava a sinalização de trânsito. Ainda hoje é assim, avesso às transgressões. Pode estar numa estrada deserta e sem fiscalização eletrônica. Não adianta. Se a placa indica cem quilômetros, andar a cento e quarenta é inconcebível. Logo, nossas viagens no sol a pino, e sem o ar-condicionado hoje tão comum na maioria dos carros, levavam mais tempo do que o necessário.

O grande mentor daquela fase naturalista foi meu falecido avô, Ulisses Câmara Villar, bastante acostumado à vida no mato. Habilidade forjada em incontáveis pescarias no rio Uruguai, nos países vizinhos e no Pantanal. De pesca marítima não entendia muito, mas sabia tudo de rios, e por sua incansável sede de conhecimento acabava se inteirando também a respeito da vegetação e fauna desses lugares.

O urutau vermelho
Além das histórias de pescador e do gosto pela natureza, meu avô também nos deixou uma herança política. Liderança do antigo partidão (PCB) na fronteira-oeste, participou de vários episódios da política nacional. Até pouco tempo antes de falecer, aos 90 anos, ainda era procurado por jovens militantes em busca de experiência, historiadores e até jornalistas atrás de informações para livros e reportagens.

Ulisses nasceu em 1914. Em 1932, embarcou num trem cheio de soldados em direção a São Paulo. Não chegou a combater. A composição foi interceptada e quem não fugiu acabou preso. Seu primeiro discurso, em cima de um caixote, aconteceu numa estação férrea, orientado por Batista Luzardo. O experiente centauro dos Pampas, ao perceber o sentido das palavras pronunciadas pelo jovem orador, mandou que descesse imediatamente do púlpito. “Não diz isso, menino. Isso é comunismo!”

Quando houve o golpe de 64 meu avô era titular de um cartório de registro de imóveis em Uruguaiana. Foi cassado, exilado no Uruguai e, por saudades da família, retornou para entregar-se aos facínoras. Foi preso e cumpriu temporada na carceragem do exército, onde teria sido bem tratado, segundo ele.

Aos 65 anos, ainda forte como um Clint Eastwood, meu avô conduziu nossa claudicante iniciação ao mundo da pesca, e do que hoje se conhece como turismo de aventura. Anos consecutivos de veraneio em barraca, sempre no litoral catarinense.

Foram testemunhas dessas empreitadas, que incluíam ajudar na pesca de arrastão na praia dos Ingleses, e ganhar de brinde cações e tainhas, alguns cronistas conhecidos e até personagens que fizeram história no futebol. No camping dos Eucalíptos, em Jurerê, também veraneavam os jornalistas Mário Marcos de Souza, Pedro Macedo e o narrador esportivo Paulo Cagliari, entre outros.

Naquela Jurerê anterior à década de 80, ainda não existia a especulação imobiliária que transformou uma praia pacata em point de celebridades, e refúgio de alguns que fazem dinheiro de forma não-convencional. O balneário alagava nos dias de chuva, as pitangueiras tomavam conta de tudo e os argentinos já eram assíduos no pedaço. O acesso à Ilha do Francês era liberado e a fortaleza de São José da Ponta Grossa ainda estava abandonada, praticamente em ruínas.

Lembro que fiquei muito impressionado quando, pela primeira vez, entrei nas celas lúgubres daquele prédio cuja construção teve início em 1740. A obra de função militar foi erguida a partir de um projeto do Brigadeiro José da Silva Paes, que apenas três anos antes construíra o Forte Jesus-Maria-José, onde teve origem a cidade de Rio Grande. Ainda hoje, quando visito o local, sinto uma atmosfera estranha naqueles cubículos que já foram habitados por prisioneiros, entre o final do século dezoito e meados do século dezenove.

Quem tinha um chalé de madeira na estrada de acesso à praia, rente ao asfalto, mas com um campo de futebol praticamente nos fundos de casa, era o ex-goleiro do Internacional, e depois técnico de futebol, Carlos Gainete. Lembro de ver meu pai jogando peladas muito disputadas, tipo rachão mesmo, com a participação do também ex-jogador Saul, cunhado de Gainete que defendeu os clubes Guarani de Bagé e Vasco da Gama.

PUNGA NO CARNAVAL DE LAGUNA
Crônicas de Praia III

Em meio às histórias de praia, dificilmente deixará de constar ao menos uma farofada. No meu caso, não poderia ser nas viagens em família, sempre bem estruturadas, organizadas e com todo suporte técnico-financeiro. Meu momento Brancaleone aconteceu aos 19 anos.

Verão de 1991, carnaval de Laguna. Dirigia meu primeiro carro. Fusca 1300, ano 1982. Na época ainda não tinha ingressado na universidade. Trabalhava como treinee de contato comercial na TV Bandeirantes. Atendia pequenas agências de publicidade. Existem centenas em Porto Alegre e na região metropolitana.

Meus companheiros de aventura foram João Emerson Kara, contato comercial das rádios Ipanema e Band FM, e André Moser, neto do saudoso Ernesto Moser, dono do antigo Chalé da Praça XV e do restaurante Dona Maria, na rua José Montauri. Atualmente, o primeiro é proprietário de uma casa noturna no bairro Ipanema, e o segundo mora em Florianópolis, onde está casado e com filhos.

O carro era um verdadeiro bólido às avessas. Seu recorde de velocidade foi cem quilômetros por hora, naquele trecho em declive da Freeway. Lotado em direção a Laguna, levamos mais de seis horas andando a noventa, que dá uma média pouco superior a oitenta. Ainda bem que tínhamos maconha e isso ajudou a driblar o tédio do efeito tartaruga.

Tudo indicava que o feriadão estendido seria de gala. Tínhamos dinheiro, duas caixas de lança-perfume argentino, equipamentos de surf e saúde para atravessar madrugadas insones. Naquela época podíamos tudo, éramos imortais e nos achávamos sábios como Confúcio.

Acampamos no pátio de uma casa alugada por outros amigos na Praia Grande, logo depois que se desembarca da balsa, entre a Galheta e o Farol de Santa Marta. Ao todo, entre campistas e instalados na “sede”, éramos quinze pessoas, incluindo duas crianças de colo que insistiam em chorar ao mesmo tempo enquanto dormíamos.

Na segunda noite deu-se o revés. Em meio à chuva, milhares de corpos suados misturavam-se nas ruas da histórica cidade de Anita Garibaldi, outrora capital da República Juliana. Depois de beijar seis mulheres, das quais três foram bolinadas e uma cedeu aos meus caprichos no banco traseiro do Fusca, descobri que minha carteira havia desaparecido do bolso detrás da bermuda.

Além de todos os documentos, inclusive alguns que não precisavam estar ali, como título de eleitor e certificado de reservista, por ser jovem e experiente, também havia colocado na carteira todo o dinheiro que levamos para o litoral.

Nos outros dois dias, só não passei fome e sede porque vendemos parte dos entorpecentes e isso amenizou o problema. Gasolina para retornar a Porto Alegre? Simples. Pedimos “emprestado” aos proprietários dos carros estacionados no pátio das casas vizinhas. E ainda nos deram um galão de reserva.

16 Novembro 2009

DEFINIDOS FINALISTAS DO AÇORIANOS

Carlos Urbim, patrono da Feira do Livro, é um dos jurados

O Prêmio Açorianos de Literatura Adulta e Infantil, ao longo dos seus 15 anos, vem premiando escritores, editoras, programas e projetos ligados à área literária da cidade de Porto Alegre. Neste ano, a premiação ocorrerá no dia 14 de dezembro de 2009, às 20 horas, no Teatro Renascença e no saguão do Centro Municipal de Cultura. A Noite do Livro vai homenagear os finalistas e os leitores comuns das Maratonas Literárias.
Serão anunciadas as melhores obras nas dez categorias do concurso: conto, crônica, ensaio de literatura e humanidades, especial, infantil, infanto-juvenil, narrativa longa, poesia, capa e projeto gráfico e os seis destaques: editora e/ou livraria; projeto de incentivo, promoção e divulgação da literatura; mídia digital; mídia impressa; rádio e TV. Além disso, será revelado o Livro do Ano, que receberá um prêmio no valor de R$ 10 mil.
O Prêmio Açorianos de Literatura 2009 tem os seguintes jurados: Ana Claudia Gruszynski, Ana Maria Lisboa de Mello, Antônio Marcos Sanseverino, Carlos Alberto Gianotti, Carlos André Moreira, Carlos Urbim, Charles Monteiro, Cláudia Laitano, Eduardo Veras, Jane Tutikian, Flávio Ilha, José Guimarães Castello Branco, José Hilderbrando Dacanal, Kátia Suman, Laís Lisboa Chaffe, Luiz Oswaldo Leite, Marcello Alves de Campos, Claudia Tajes, Maria do Carmo Alves de Campos, Marô Barbieri, Maria Eunice Moreira, Paulo César Ribeiro Gomes, Paulo Visentini, Paulo Seben, Regina Zilberman, Ricardo Barbarena e Sônia Maria Zanchetta.
Em paralelo ao prêmio, e como forma de divugá-lo, será realizado o seminário Debates Contemporâneos, no Instituto Goethe e no Instituto de Letras da UFRGS, dias 24, 25 e 26 de novembro. O seminário propõe uma pausa para o debate sobre literatura contemporânea e incentivo à leitura. A programação é gratuita.
-CAPA-
O Muro, de Christina Dias, Capa de Elma, Editora Meia Lua. / Raiva nos Raios de Sol, de Fernando Mantelli, Capa de Samir Machado de Machado, Não Editora. / Theatro São Pedro – 150 Anos, de Gunter Axt (organizador), Capa de Flávio Wild, Editora Nova Prova.
-PROJETO GRÁFICO-
As Guerras dos Gaúchos – História dos Conflitos do Rio Grande do Sul, de Gunter Axt (coordenador), Projeto Gráfico de Marília Ryff-Moreira Vianna, Editora Nova Prova. /De Carona, Com Nitro, de Luis Dill, Projeto Gráfico de Joãocaré e Juliana Dischke, Artes e Ofícios Editora Ltda. /Ficção de Polpa Vol. 3, de Samir Machado de Machado, Projeto Gráfico de Samir Machado de Machado, Não Editora.
-CONTO-
A Frase do Doutor Raimundo, de Antônio C. de A. Ribeiro/Orlando Fonseca/Tânia Lopes/ Athos M. Cunha (organizador), Editora Movimento. /Grades do Céu, de Susana Vernieri, Editora Libretos. /Trocando em Miúdos, de Luiz Paulo Faccioli, Editora Record.
-CRÔNICAS-
100 Lições para Viver Melhor, de Cláudio Moreno, L&PM Editores. /234 Posições Pós-Modernas, de Ildo Carbonera, EST Edições. /Doidas & Santas, de Martha Medeiros, L&PM Editores.
-ENSAIOS-
Fronteiras e Confrontos, de Donaldo Schüler, Editora Movimento. /Moinhos de Vento – Histórias de um Bairro de Porto Alegre, de Carlos Augusto Bissón, Editora da Cidade. /
Por Que Ler Dante, de Eduardo Sterzi, Editora Globo.
-ESPECIAL-
As Guerras dos Gaúchos – História dos Conflitos do Rio Grande do Sul, de Gunter Axt (coordenador), Editora Nova Prova. /Manual de Anti-Ajuda, de Dois Santos dos Santos, Editora Nova Roma. /Operação Condor: O Sequestro dos Uruguaios, de Luiz Cláudio Cunha, L&PM Editores.
-INFANTIL-
Doido para Voar, de Hermes Bernardi Jr., Artes e Ofícios Editora Ltda. /Histórias Bem…(Coleção), de Caio Riter e Márcia Leite, Editora Escala Educacional. /Transpoemas, de Ricardo Silvestrin, Editora Cosac Naify.
-INFANTO-JUVENIL-
De Carona, Com Nitro, de Luis Dill, Artes e Ofícios Editora Ltda. /Meu Pai Não Mora Mais Aqui, de Caio Riter, Editora Biruta. / Todos Contra Dante, de Luis Dill, Editora Companhia das Letras.
-NARRATIVA LONGA-
A Parede no Escuro, de Altair Martins, Editora Record. /O Professor de Botânica, de Samir Machado de Machado, Não Editora. / Uma Leve Simetria, de Rafael Bán Jacobsen, Não Editora.
-POESIA-
In Verso, de Tania Alegria, RIE – Redactors i Editors. /Monolítico (Memória Que Não Morre), de Luiz de Miranda, Design Editora. /Prosa do Mar, de Marlon de Almeida, Editora 7 Letras.

26 Outubro 2009

NARRAR EM HIPERTEXTO
PARA A ERA DIGITAL

"Narrar em hipertexto para a Era Digital" é uma das ativididas inseridas na programação da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, que se inicia sexta-feira, 30 de outubro. Trata-se de uma oficina que mescla técnicas de criação literária com novas ferramentas de comunicação, propondo aos participantes que pensem a criação a partir desse novo paradigma.

Serão trabalhados conceitos mais literários, como personagem, tempo e espaço, ao lado de conceitos da tecnologia como hipertexto, multimídia e interatividade. Ao final se planeja a elaboração de uma narrativa que integre literatura e tecnologia, que será exibida na I Mostra de Blogs e narrativas digitais.

Oficina com Marcelo Spalding
Dias 12, 13 e 14 de novembro, das 16h30min às 18h
Casa do Pensamento - Área Infanto-Juvenil da Feira do Livro de POA
ENTRADA FRANCA!

Confira a programação completa da semana em
www.literaturadigital.com.br

12 Outubro 2009

CRÔNICAS DE VALADÃO
Detetive

Valadão perdeu um irmão em desastre de automóvel. Foi na estrada que liga Porto Alegre ao litoral Norte. Ataque cardíaco, logo após o segundo pedágio, antes do acesso aos municípios de Osório e Tramandaí. Chegou a ser atendido pelos socorristas da concessionária responsável por aquele trecho da rodovia, mas não resistiu e morreu na ambulância a caminho do hospital.

Era sargento da Brigada Militar, cedido à Assembléia Legislativa a pedido de um deputado. O acidente aconteceu durante uma campanha eleitoral, a caminho de comícios do governador candidato à reeleição. Foi o brigadiano quem incentivou Valadão a se profissionalizar como detetive particular.

Apesar de praça, era segundo sargento, o irmão cultivava boas relações com oficiais e comandantes da corporação. Ganhara fama como motorista de viaturas do Batalhão de Operações Especiais, acostumado a guiar em alta velocidade. Foi essa qualidade, inclusive, que o aproximou do tal deputado, para quem dirigia sempre com o pé colado. Cento e cinqüenta, cento e sessenta por hora, às vezes até mais, em carros turbinados, equipados com anti-radar contrabandeado da Argentina.

O primeiro caso
Valadão cumpriu todas as exigências legais, a começar pelo curso de formação à distância. Foi à Delegacia Regional do Trabalho e registrou-se na categoria profissional de Detetive Particular. Contribui para o INSS, tem empresa registrada na Junta Comercial e paga impostos à prefeitura. E o melhor de tudo, segundo constatou na prática: a profissão é livre de qualquer embaraço fiscalizador por órgão ou conselho.

Indicado pelo irmão aceitou o primeiro caso. O cliente era um desembargador aposentado, amigo do deputado estadual. Desconfiava que a mulher, trinta e cinco anos mais jovem, o traía com um amante da mesma idade. Foi à casa do homem, tiveram longa reunião a portas fechadas. Depois de ouvir perguntas e fornecer explicações sobre métodos de trabalho, informou o valor da empreitada. Dez mil reais, metade na hora e o resto ao final do trabalho. Estipulou prazo de trinta dias, ao término do qual apresentaria provas para condenar ou absolver a suposta adúltera.

O primeiro impulso de Valadão foi dar o golpe. Já estava com a grana no bolso. Em trinta dias, independente do que dissesse, iria faturar mais uma bolada. O velho era otário mesmo, deduziu, no dia em que foi apresentado à suspeita. Não precisava de investigação para compreender a natureza daquela pessoa. Pela linguagem e a maneira de vestir e se comportar, era óbvio que tratava-se de mulher de vida fácil, talvez ex-prostituta de boate de luxo. Chegou a perguntar para o cliente sobre a vida pregressa da esposa, mas ele desconversou e apenas disse que dava aulas em academia de dança. Inclusive, pensava em montar um estúdio para ela, possivelmente contíguo à academia que abrira para o filho, recém chegado da Europa.

Vira-latas se reconhecem pelo cu
Filho? E o homem explicou, constrangido. Júnior era personal trainer. Morava na Espanha, onde dava aulas de Jiu Jitsu e Muai Tai. Vivia clandestinamente, envolveu-se numa briga de bar com travestis, foi preso, cumpriu alguns meses e o deportaram para o Brasil.

Malandro por vocação tem uma qualidade que o destaca. Ao contrário das pessoas normais, suscetíveis aos achaques de escroques e aproveitadores, o malandro identifica de cara quem é embusteiro, talvez por tratar-se de dois iguais. É como os cachorros de rua, que se identificam e reconhecem quando cheiram a bunda uns dos outros.

Valadão abandona a idéia do golpe. Plano B. O caso era barbada. Com a ajuda do irmão brigadiano, grampeou de forma clandestina os telefones da casa do desembargador, além dos celulares da mulher e do filho. Em poucos dias reuniu provas. Fotos e gravações que comprometiam Júnior e a madrasta. Astuto, ao invés de apresentar o dossiê, pediu mais trinta dias de prazo, sem ônus para o cliente, que também prorrogaria o pagamento da quantia pendente. A proposta foi aceita, e com ela surgiram duas novas frentes de trabalho.

Primeiro visitou a academia de Júnior. O playboy tentou botar banca, fez que ia sair no soco, mas em seguida já estava manso, falando miúdo, apavorado com a idéia de perder regalias. O pior pode ser evitado, explicou Valadão, acenando com a possibilidade de manter tudo em segredo. Poderia dizer ao velho que nada descobrira. Era simples, bastava apenas um comando para que a coisa fosse esquecida. Proposta semelhante fez à madrasta, também interessada em colocar panos quentes no escândalo familiar. Ao final das negociações, ambos aceitaram as cláusulas de Valadão.

Júnior entregou de papel passado uma moto Honda 750, recém adquirida. E a mulher do cliente, ao longo de trinta dias, foi sodomizada em motéis de luxo. Terminado o prazo, por questão de ética profissional, entregou o dossiê prometido e recebeu cinco mil reais. O velho, apesar de decepcionado com a dupla traição, agiu com sabedoria. Magnânimo. Júnior foi enviado aos Estados Unidos para aperfeiçoar suas técnicas de combate no solo, e a mulher finalmente realizou o sonho da academia de dança. Caso encerrado.

09 Outubro 2009

CRÔNICAS DE VALADÃO
Viagem em família

Valadão teve várias ocupações e endereços. Atualmente sobrevive como músico. Tem uma banda de rock, e a qualquer momento deve estourar nas rádios. Enquanto isso faz bicos numa produtora de áudio especializada em jingles, dá aulas de violão e joga em bingos e caça-níqueis clandestinos.

Seus filhos estão criados. Quase chegando aos cinquenta, ainda vive no ritmo acelerado de vinte anos atrás. Era o auge, como ele mesmo costuma dizer, nos bate-papos etílicos que redundam em desabafos e delírios saudosistas.

Em Porto Alegre, no final da década de oitenta, o bairro Ipanema era muito bem servido no segmento de mercado conhecido como prestação de serviços, ramo do entretenimento adulto. No antigo balneário, ainda hoje um ponto nobre da capital gaúcha, funcionava naquela época duas saunas masculinas e uma boate. Os três estabelecimentos eram muito requisitados. Artistas de passagem pela cidade, jogadores de futebol, jornalistas conhecidos, políticos e empresários eram clientes assíduos.

Naquele tempo Valadão tinha dinheiro, prestígio e amigos importantes. Trabalhava em dois empregos: traficante de cocaína e gigolô. Agenciava quinze garotas de programa, mantidas em sistema de rodízio entre as saunas Gávea e Ilha da Fantasia e a boate Five Star. Nenhum desses lugares existe hoje em dia, mas quem os conheceu deve lembrar, ou desconversa e finge que lá nunca esteve.

Prestação de contas
e
prospecção de clientes

O esquema era simples. Primeiro recrutava as putas na avenida Farrapos. Depois ganhava confiança, tirava das ruas, dava banho de loja e, pessoalmente, dedicava algum tempo e ainda mais dinheiro num programa de aperfeiçoamento. Hoje em dia seria uma espécie de upgrade do staff. Naquela época, apenas um jeito de qualificar a mão-de-obra para ter mais chances de disputar no mercado cada vez mais competitivo.

Quinze por cento do valor recebido ficava para o dono casa. O mesmo percentual era destinado ao cafetão. No final do expediente elas recebiam no caixa, tomavam banho, trocavam de roupa e a prestação de contas acontecia num dos bares que funcionavam à beira do Guaíba. Hoje eles não existem, a prefeitura mandou derrubá-los.

Numa sexta-feira à noite, início do feriadão de Nossa Senhora Aparecida, Valadão despacha apressado com as funcionárias, impaciente para concluir a agenda de audiências. Um importante grupo de rock chegaria à cidade na próxima semana e ele fora acionado por um amigo, dono da produtora que os trazia. A lista de exigências dos músicos incluía justamente os dois itens fornecidos pela Valadão Empreendimentos. Ainda naquela noite deveria se encontrar com o empresário da banda, que viera antes e estava hospedado no Plaza São Rafael. É o mesmo hotel que, anos mais tarde, após fuga cinematográfica do Presídio Central, foi invadido por Melara e os facínoras.

Morangos
O acerto de contas com as funcionárias transcorreu normalmente. Queria agradar ao empresário, e levou amostras dos produtos que comercializava. Duas foram destacadas para acompanhá-lo na reunião do hotel. Como tinham pressa, e não houve tempo para maiores produções, trocaram de roupa e retocaram a maquiagem dentro do carro, a caminho do centro.

O encontro aconteceu na luxuosa suíte onde se hospedara o produtor cultural. Champanhe, morangos e suruba. Depois vararam a madrugada, regados a uísque doze anos e droga. Valadão foi embora com a metade do dinheiro correspondente ao que seria consumido pela banda de rock nos dias de show no Ginásio Gigantinho.

Após a reunião, levou as funcionárias em casa e ainda passou num ponto de vendas 24 horas que mantinha no bairro Tristeza, onde arrecadou mais dinheiro. Tudo aconteceu conforme planejado, ainda a tempo de retornar para casa, carregar o carro e honrar o compromisso familiar. Iria com a mulher, o casal de filhos, a sogra e o cachorro para o litoral de Santa Catarina, de onde retornariam terça-feira após o feriadão.

Chegou ao amanhecer. A mulher, apesar de ciumenta e possessiva, não perguntou de onde viera. Conhecia a natureza de suas atividades, acostumara-se a seus hábitos e horários fora de padrão. Era bom pai, excelente marido, cumpridor de suas obrigações inclusive na cama, não tinha do que se queixar. Dele aceitava quase tudo, menos o contato íntimo com as garotas que agenciava.

Rumo ao litoral
Partiram às sete horas, depois de lauto café da manhã com vários tipos de frios, cucas e pães. A idéia era seguir direto para Laguna. Ficariam hospedados na casa de um amigo no farol de Santa Marta.

A viagem transcorreu sem maiores transtornos, salvo o bate-boca das crianças durante partes do trajeto. Fizeram uma parada em Tramandaí para comprar cigarros, doces, tomar caldo de cana e abastecer o Opala seis cilindros. A mulher, a sogra e as crianças foram ao banheiro. Valadão aproveitou para fumar um baseado atrás do posto de gasolina, antes de retornarem à estrada.

Estavam chegando ao município de Torres, na divisa com Santa Catarina, quando começou a chover. Lá pelas tantas, para desviar de um buraco, Valadão freia o carro bruscamente. Neste momento, por causa do solavanco, percebeu a presença de um objeto indesejável que rolou debaixo do banco do motorista. Era o pé esquerdo de um par de sandálias. Na mesma hora deu-se conta: uma das gurias deve ter deixado cair de madrugada, quando trocara de roupa dentro o carro, a caminho do hotel.

Sem perder a calma, e já temendo que a mulher enxergasse o sapato e fizesse um escândalo, seguiu dirigindo tranquilo como se nada houvesse acontecido. Por sorte, alguns quilômetros à frente, houve um grave acidente envolvendo dois carros e uma carreta. Valadão aproveitou o momento. A atenção de todos voltou-se para a tragédia, e ele rapidamente atirou a sandália pela janela, livrando-se do flagrante.

Aliviado, seguiu viagem e até cantarolou as músicas da Xuxa que as crianças ouviam no toca-fitas. Chegaram ao destino, descarregaram o carro e foram se instalar nos quartos que o amigo destinara à família. A sogra, entretanto, permaneceu no automóvel. Questionada sobre o motivo da demora, respondeu num misto de indignação e perplexidade. “Incrível! Não consigo achar o pé esquerdo das sandálias. Tenho certeza que coloquei debaixo do banco do motorista!”

06 Outubro 2009

PARA GOSTAR DE LER

Em dezembro de 1991, passei no vestibular do curso de jornalismo da PUCRS e fui selecionado na Oficina de Criação Literária do Instituto de Letras e Artes da mesma universidade. Faz quase 18 anos. Eu tinha 19 anos e meus pais estavam de férias no Rio. De lá, após receberem a dupla notícia, trouxeram de presente “Os melhores contos de Fernando Sabino”, de quem eu já era leitor e fã.

Tenho o livro a meu lado agora, enquanto escrevo estas linhas. Na verdade, cresci lendo o Sabino. Era recorrente na biblioteca dos meus pais, e depois fiquei com todos os livros para mim. Aliás, se não estou enganado, o primeiro contato com a obra do autor foram as crônicas da coleção "Para gostar de ler", da Editora Ática. Meu irmão, quatro anos mais velho, teve de fazer a leitura da obra como tarefa da escola. E eu aproveitei a oportunidade para fazer minhas primeiras incursões em “leituras de adulto”. Outra leitura que marcou meus primeiros passos foi O menino no Espelho, da mesma forma que O Menino Grapiúna, de Jorge Amado, e Menino de Engenho, de José Lins do Rego. Hoje, tenho quase todos os livros do Sabino.

O cara é um dos meus mestres, pela simplicidade da linguagem e a escolha do cotidiano como temática principal. Sabia valorizar a palavra, era econômico e nos seus textos não sobrava absolutamente nada. Além disso, fazia uso inteligente do diálogo direto. Usava na medida certa, sempre que possível entremeado por ações e breves descrições. E não era exibido, nem fazia malabarismo com a palavra. Era preto no branco.

Passados cinco anos ele ainda faz falta, e sempre fará. Ao menos o vazio e a ausência terminam quando releio a obra de Fernando Sabino. Escritor, jornalista, nasceu homem dia 12 de outubro de 1923, e morreu menino naquele dia 11 de outubro de 2004*. Quando eu partir, é dele um dos primeiros autógrafos que pedirei lá em cima.

*Por coincidência, 11 de outubro é a mesma data em que morreu Renato Russo, em 1996.

05 Outubro 2009

FRANCO ATIRADOR

Sempre defendi que não existe autor mais capaz, em termos de criatividade, do que as circunstâncias e situações oferecidas pela vida. O segredo é saber observar, e ter a capacidade de reproduzir aquele conteúdo de forma literária, se possível com interesse para o leitor. Desconheço autor bem sucedido que não seja, antes de tudo, um paciente observador. Escritor é o sniper da vida alheia. Fazemos mira em alvos a longa distância, parados ou em movimento. Somos Vassili Zaitsev contra os nazistas na batalha de Stalingrado.

Mesmo sem olhar, apenas com o sentido da audição, torna-se fácil decifrar códigos e montar uma história que precisará de pequena ajuda para ir adiante. No meu caso incluo o conflito, espécie de obsessão para mim. Respeito quem o dispensa, talvez porque não consiga dominá-lo, ou porque estamos todos errados e o certo mesmo é o conto paraplégico, curupira, de pernas viradas para trás e personagens que falam a língua dos elfos. Questão de gosto e escolha.

Para mim, interessante pode ser o vizinho do andar de cima. Nunca o vi, mas hoje à tarde escutei o que dizia ao telefone. A vida é sempre um exercício de criação. Pela voz, logo na primeira frase, percebo algumas opções de vida da suposta personagem. É jovem, homossexual, e a julgar pelo vocabulário veio de alguma cidade do interior, mas de outro estado. No conteúdo da mensagem consigo captar o conflito. Desempregado, frequenta uma universidade, aguarda a visita de um familiar para os próximos dias e tem apenas mais um mês de seguro desemprego. Com estes argumentos é possível montar um conto. O resto é criatividade e estilo.

O MONSTRO COME GENTE

A convivência com uma profissional da área de Saúde abriu novas perspectivas para a construção de personagens. Não me atrevo a reproduzir o que desconheço, nem tenho vocação para a narrativa fantástica ou a metalinguagem. As coisas do cotidiano têm mais valor para mim. E o lado açougueiro de homens e mulheres que convivem diariamente com a vida, driblando a morte com ciência, métodos e procedimentos, vai ao encontro de um dos objetivos perseguidos como autor: mostrar a versão inferno do mundo, angústias, vitórias e derrotas do dia-a-dia.

Todas as noites, durante um plantão que se inicia 19h e encerra às 7h do dia seguinte, nascimentos e óbitos tornam-se corriqueiros, exatamente como os formulários preenchidos para que hospitais sejam ressarcidos pelo SUS ou convênios particulares. Nasceu antes da hora, houve complicações. Alguém precisa enfiar a pequena agulha na testa do recém nascido. E rápido, senão os medicamentos necessários àquela frágil vida não serão ministrados a tempo. Se o pior foi inevitável, estaremos frente a mais um número nas estatísticas. Amanhã é outro dia, outras parturientes darão entrada e novas histórias virão à luz para serem contadas por caras como eu.

Outro exemplo? Os traumas. Eles demonstram nossa fragilidade. De uma hora para outra, sem aviso prévio, termina o encanto da mágica. Apesar do despiste, um dia finalmente teremos de comparecer àquele encontro protelado. Para quem sobrevive à experiência deve ser como despertar de um sonho ruim, só que neste caso o pesadelo acontece quando estamos acordados. Não há outra saída, a não ser encarar o monstro. Pode ser desatenção no trânsito, tentativa de assalto que termina em tragédia, acidente cardíaco ou vascular cerebral. Vivemos numa corda bamba entre arranha-céus.