29 Novembro 2006

Edição ZERO - Novembro de 2006

O que éramos
Sair do lugar-comum tem sido uma obsessão desde a morte do último blog, decretada por falência múltipla de idéias, segundo atesta a certidão de óbito na edição número 57, publicada dia 10 de agosto de 2005. Mais de ano sem postar e nenhum contato com as pessoas que acessavam CACOS – O ofício solitário do autor desconhecido. A bem da verdade, o único contato ficou por conta dos e-mails recebidos: meia dúzia de pêsames e condolências; outros mais exaltados, xingando ou pedindo explicações pela decisão editorial de encerrar a publicação.

Apesar de tosco e com menos recursos do que este, CACOS fez carreira porque trazia informações sobre autores de vários estados, lançamento de consagrados e estreantes, matérias jornalísticas sobre eventos e todo tipo de movimentação relacionada à literatura. Além disso, tinha uma particularidade editorial planejada desde o começo, considerando o fato de que a Internet havia me permitido a formação de uma vasta e ilimitada rede de contatos, do Rio Grande do Sul à Paraíba: publicava narrativas de outros autores e conseguia espalhar meus textos também.

Não vou perder tempo recordando a trajetória do cadáver, apenas lembrar que ele acabou me levando à II Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em 2004, quando lancei o independente e esgotado “Contos para ler cagando”. Andar me equilibrando nas pedras irregulares das ruas de Paraty – não tenho dúvidas quanto a isso - qualificou as fundações da estrutura que ainda pretendo transformar em obra.

O que nos tornamos

A parte boa da empreitada foi viajar ao Rio de Janeiro como escritor e obter relativo sucesso num trabalho que demandou seis meses, entre planejamento e execução.

Alcançar o êxito num objetivo há muito desejado, compensa um fracasso que te leva embora outra coisa importante? Considere que os dois valores em questão concorrem em diferentes escalas. Exemplo: personagem hipotético é jornalista. Estuda para ser escritor desde antes da faculdade e vive um breve momento de ascensão, colhendo os primeiros e magros resultados como autor, em meio a uma selva povoada de talentos literários e falta de oportunidades. Cacotético deu o máximo que podia para chegar àquele ponto. Infelizmente, por causa de suas limitações, valores que concorrem em outras escalas foram relegados e esse desleixo teve uma conseqüência desastrosa.
Sentiu o clima? A coisa ergue de um lado e arria na outra parte.

Não estou falando em literatura

A óbvia diferença entre CACOS e O Exu Literato está na opção editorial. Sempre relutei em escrever blog de umbigo. Não sabia como fazê-lo e temia o desinteresse pela repetição. Autor com blog, falando sobre vida, obra e cotidiano está longe da novidade. Às vezes, chega a ser até deprimente como alguns se expõem ao ridículo.

Eis o duplo desafio: evitar o ridículo ao falar de mim / contar o que ainda não foi dito.

A primeira parte é relativamente simples. Problema é o resto. Depois de meses processando cálculos mentais e projetando simulações, descobri rotas alternativas e vislumbrei no lado B a única saída viável. Afinal, é o lado B das coisas que me diferencia na ficção. Na Internet, não serei o único cronista do avesso, nem o narrador mais hábil e criativo. Também não almejo os índices de audiência registrados por Bruna Surfistinha, que publicou livro e hoje vive séria ao lado do marido. Dizem.

Liquidificador

Neste blog desfilarão fragmentos de histórias e alguns protagonistas dos contos que pretendo escrever. Ainda não são personagens, portanto serão preservadas as identidades nos casos em que a publicação do nome verdadeiro possa causar algum tipo de dano moral ou constrangimento. A medida também protege o autor contra futuros processos judiciais.
Verdade mascarada para camuflar a identidade das pessoas. Algumas circunstâncias serão alteradas, nos casos em que a história com datas e locais revela a identidade do protagonista. Se você chegou a este ponto da leitura, deve estar se perguntado qual é, afinal, a grande diferença deste blog, ou tentando entender o porquê da preservação das identidades.

A nobreza do escroto


No blog anterior, num dos raros momentos de umbigo, publiquei a justificativa sobre minha opção editorial na literatura. Agora, vale também neste caso, em outras palavras. Por que escrevo sobre o torto e não consigo pensar histórias água com açúcar, tipo final feliz?

A resposta é óbvia. Que graça teria contar que estive na casa de Luiz Paulo Faccioli e Cíntia Moscovich, ou encontrei Fabrício Carpinejar em algum evento literário? Alguém se interessa em saber, por exemplo, que a editora Casa Verde fez uma doação à recém criada Biblioteca Comunitária da Lomba do Pinheiro, ou que na próxima semana participo de um evento no Botequim das Letras com o vencedor do Prêmio Fato Literário? Creio que não.

Minha opção pela reciclagem do lixo deve-se à confiança na curiosidade mórbida do leitor. Além disso, a maioria dos catadores que está na ativa é de garotos ainda. Eles não amam Beatles nem Rolling Stones, tampouco conhecem traficantes, prostitutas de luxo, jogadores, viciados e outros imprestáveis que perambulam neste mundo. Calma! Vou falar de coisas light também, como adultério, dor de cotovelo e perda de entes queridos, por exemplo.

Idéias não comem ninguém

O título acima e o texto abaixo foram publicados no blog anterior. Foi o ponto de partida do conto que deu nome à obra No Orkut dos outros é colírio.

"Outra vez a velha confusão entre o Caco Belmonte e o Ricardo Villar Belmonte: P ... , meu amor. As pessoas do sexo feminino que freqüentam este Blog, ou falam sobre mim lá no Orkut, não estão apaixonadas pelo teu marido. Elas apenas simpatizam com as coisas que escrevo. Só isso. A maioria nunca me viu, conhece apenas minhas idéias. E idéias não comem ninguém. Pára com isso. Olha o vexame."


O EXU LITERATO SERÁ PUBLICADO SEMANALMENTE