21 Dezembro 2006

EDIÇÃO 02



Os primitivos modernos

A conexão entre o moderno e o primitivo me levou a esta edição temática. Durante anos, recusei convites e resisti à tentação de freqüentar festas rave. Não sou fã de música eletrônica, não me incluo em nenhuma das tribos que circulam nesse tipo de evento e também não costumo tomar Ecstasy, embora tenha experimentado a droga durante a incursão antropológica.
Logo na primeira vez, percebi rapidamente que ali havia alguma coisa meio tribal, não apenas por causa do ritmo sincopado e frenético, mas também pelo reconhecimento de signos que identificam e caracterizam os grupos reunidos em torno da “celebração”.
Também compreendi que alguns estilos de música eletrônica - como o Trance, por exemplo - permitem que o DJ execute a música até um ponto culminante, seguido de uma parada abruta que dura apenas um ou dois segundos, depois retorna aos poucos e cresce novamente até a apoteose. A manobra provoca um efeito explosivo, potencializado pela ingestão de substâncias químicas.
Outro fator que me levou a entender e participar do fenômeno foi o elevado número de trabalhos acadêmicos desenvolvidos recentemente sobre o tema. Uma tese de dissertação em antropologia defendida em abril de 2004, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é de autoria de Ivan Paolo de Paris Fontanari e chama-se “Rave à margem do Guaíba: música e identidade jovem na cena eletrônica de Porto Alegre”.
Portanto, a partir de ferramentas como pesquisa e observação participante, escrevi um arrazoado à guisa de estudo sobre a cultura rave em Porto Alegre. Para isso foi necessário compreender a dimensão ritual-performática do evento e os códigos que orientam as práticas culturais e estéticas dos envolvidos.

A explicação dos acadêmicos

Alguns teóricos, para explicar o fenômeno, evocam a pós-modernidade (sociedade pós-industrial marcada por um momento pós-utópico e sem projeção de futuro) e suas conseqüências, tais como o surgimento das tribos urbanas, por exemplo.

A cronologia dos fatos remonta ao movimento clubber da década de 70, mas foi somente na década de 80, na Inglaterra, que esse movimento se firmou com as primeiras festas em Manchester. Depois o fenômeno se espalharia pela Alemanha, principalmente Berlim. Nos Estados Unidos a rave chegou em 1991.

Toda a cena inglesa, ao final dos anos 80, era chamada de “acid house party". A terminologia não existia até então. O termo Rave (delírio) surge para reforçar a relação da música eletrônica com o esctasy e o ácido lisérgico (LSD) ajudando na busca por um estado alterado de consciência. Como ideologia, os adeptos da rave adotaram a defesa dogmática do PLUR (peace, love, unity and respect).

Atualmente, existe uma denominação que caracteriza Rave de pequeno porte, conhecida como PVT; ou seja, algo como private trance, onde a maioria das pessoas que comparecem são convidados e convidados dos convidados. Esse tipo de evento é realizado em sítios, chácaras e outros lugares ao ar livre, tendo duração menor do que as raves (até 24h).

Transcendência coletiva

A formação das tribos de clubbers e ravers tem como referencial comum um conjunto de manifestações vinculadas à musica (e-music). Essa cultura da música eletrônica faz parte de um movimento marcado pelo conceito underground (formas alternativas de informações, música não-comercial) e ligado à cibercultura. Associadas, essas culturas produzem novas formas de socialidade e difusão artística.
Para haver socialidade é preciso um ponto de encontro. É a música que faz essa conexão e gera uma interatividade entre tecnologia, comportamento, arte, informação e ciberespaço. As pessoas vivenciam uma forma comum de experimentar.

Alguns eventos em que a música eletrônica está implicada buscam conexões com outras linguagens artísticas, notadamente no campo da produção imagética. É o caso dos artistas que geram imagens fractais, clips em 3D e animações em realidade virtual.

A busca por um estado alterado da consciência, a partir do uso de drogas como Ecstasy e LSD, sempre caminhou paralelamente à cultura da música eletrônica, considera hedônica. Essas drogas assumem o papel de despertar um estado psicológico único de transcendência coletiva. Porém, raves e festas em clubs não dependem do uso de drogas.

Experiências multisensoriais são vividas nas festas como um sinal de unidade entre o passado e o futuro. A rave é primitiva, com a reunião de tribos de gente jovem para experimentar a participação mística através de cinéticos e MDMA (Ecstasy), dança e música tribal. Também é futurística (ou moderna), com o uso de música sampleada e remixada digitalmente, efeitos de luz e laser e exposições multimídia.

Lysergic Acid Diethylamide - LSD

O LSD foi inventado por acaso, quando o químico Albert Hofmann (foto) trabalhava na síntese dos derivados do ácido lisérgico, uma substância que impede o sangramento excessivo após cirurgias como o parto. A descoberta dos efeitos da droga verificou-se quando ele ingeriu, acidentalmente, um pouco da substância. Logo em seguida o nobre cientista se viu obrigado a interromper o trabalho devido aos efeitos alucinógenos que começou a sentir.

Inicialmente a droga foi utilizada como recurso psicoterapêutico e para tratamento de alcoolismo ou disfunções sexuais. Com o movimento hippie, começou a ser utilizada de forma recreativa e causou grande agitação nos Estados Unidos. O consumo do LSD difunde-se no meio universitário norte-americano, entre músicos e nos ambientes literários.

O LSD25, também conhecido como ácido, é utilizado por via oral. Trata-se de um líquido sem cheiro, cor ou sabor. Em geral, o usuário introduz embaixo da língua um pequeno pedaço de papel de filtro impregnado com a droga, no qual se verificam vários desenhos e ilustrações. São os desenhos que definem o nome do LSD que está sendo consumido (Asterix, Fat Freddy’s Cat, Gato Felix, Bart Simpson e assim por diante). Também pode ser usado através de conta-gotas, bebidas ou selos de cartas. O LSD25 é tão potente que pequenas doses, de 20 a 50 microgramas, já produzem alterações mentais. Um micrograma cabe na ponta de uma agulha.

Em geral as pessoas usam alucinógenos como o LSD25 para ter visões e sensações novas. O fato de tudo parecer colorido “tornaria", por exemplo, uma festa mais alegre e diferente. Outros usam porque acreditam ser capazes de obter visões reveladoras, conhecer melhor a si e aos outros (o que não é verdade). Em se tratando de uma droga ilegal, torna-se difícil especificar um número correto de usuários. Sabe-se que no Brasil seu uso é pouco significativo, embora tenha crescido recentemente.

Os efeitos físicos do ácido incluem pupilas dilatadas, aumento da temperatura do corpo, aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, suores, perda de apetite, falta de sono, boca seca e tremores. Mesmo doses muito grandes não chegam a intoxicar seriamente uma pessoa, do ponto de vista físico. Mas efeitos de fadiga e tensão podem ser relacionados ao uso crônico e podem durar vários dias.

Os efeitos aparecem de 30 a 90 minutos após a ingestão e duram aproximadamente seis horas. Durante esse tempo a droga produz fenômenos alucinatórios que envolvem um conjunto de percepções. Isto significa que, mesmo sem ter um estímulo (objeto), a pessoa pode sentir, ver e ouvir. As sensações são "reais", provocando dor, prazer, medo, ansiedade e outras.
O uso também pode levar ao aparecimento de "flashbacks". Esse fenômeno ocorre algum tempo (semanas ou meses) após a ingestão. É um fato de causa desconhecida que leva a pessoa, repentinamente, a ter todos os sintomas psíquicos da experiência anterior, sem ter tomado de novo a droga. O "flashback" pode ainda ser desencadeado por cansaço, intoxicação alcoólica e uso abusivo de maconha.

O Ministério da Saúde do Brasil não reconhece uso médico do LSD25 e proíbe totalmente a produção, comércio e uso. A Organização Mundial da Saúde e as Nações Unidas consideram o LSD como droga proscrita (proibida). A vetusta Lei nº 6368, de outubro de 1976, chamada de "lei antitóxico", no seu artigo 12, classifica como traficante de droga tanto a pessoa que possui laboratórios clandestinos que sintetizam o LSD25 como aquela que simplesmente o oferece a um amigo, ainda que gratuitamente.

Fonte: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas

Ecstasy

O MDMA (metilenedioxi-metamfetamina), mais conhecido como ecstasy, é uma droga moderna sintetizada, neurotóxica, muito popular entre os jovens, cujo efeito na fisiologia humana é o bloqueio da reabsorção da serotonina, dopamina e noradrenalina no cérebro, causando euforia, sensação de bem-estar, alterações da percepção sensorial e grande perda de líquidos. Ao contrário do que se propaga, não existe efeito afrodisíaco nesta droga.
É vendido sob a forma de comprimidos e ocasionalmente em cápsulas. Embora estudos mostrem que a neurotoxicidade do ecstasy não cause danos permanentes em doses recreativas, ainda existe a suspeita de que o consumo cause danos de forma gradual, com perigo de desenvolvimento de doenças psicóticas. Os estudos a respeito do ecstasy em humanos são pouco difundidos por questões legais.
O MDMA foi sintetizado pela Merck (1914) como redutor do apetite e nunca foi usado com essa finalidade. Em 1960 foi redescoberto, sendo indicado como elevador do estado de ânimo e complemento nas psicoterapias. O uso recreativo surgiu nos anos 70. Em 1977, foi proibido no Reino Unido e em 1985 nos Estados Unidos.
Uma curiosidade das pastilhas é o fato de serem coloridas e identificadas mediante o desenho impresso na “bala”. Dependendo da quantidade ingerida, o MDMA demora de 30 a 60 minutos para surtir efeito. Ao contrário de outros psicoactivos, o efeito do MDMA é muito rápido. A quantidade de MDMA em cada comprimido varia, em média, entre 30 e 100mg, dependendo da pureza da composição e da tolerância do consumidor.
Quando ingerido oralmente causa efeito de três a quatro horas, podendo chegar a seis. Existe um período de tempo acrescido, associado ao declínio dos efeitos primários, em que o consumidor tem a percepção da persistência dos efeitos, embora não possa considerá-los a verdadeira experiência (efeitos primários). Nesse período podem ocorrer insônias (devido ao estado de agitação), coceiras, reações musculares como espasmos involuntários, espasmos do maxilar, dor de cabeça, visão turva, manchas roxas na pele, movimentos descontrolados de vários membros principalmente braços e pernas.
Cuidado! Não é preciso tanta droga para entrar no clima, a menos que o amigo leitor queira FRITAR desse jeito.
Durante o período de intensidade do ecstasy podem surgir circunstâncias perigosas: náuseas, desidratação e hipertermia. Esses sintomas são frequentemente ignorados pelo consumidor devido ao estado de despreocupação e bem-estar provocados pela droga, o que pode ocasionar exaustão, convulsões e mesmo a morte. É freqüente ver os consumidores em raves e clubes de dança dotados de garrafas de água ou bebidas energéticas. Quando ingerido com bebidas alcoólicas, pode ocasionar um choque cárdio-respiratório e levar ao óbito.
Em termos de efeitos secundários, o MDMA provoca variações de humor nos dias seguintes; alguns indivíduos registram períodos depressivos enquanto outros registram aumento de auto-estima. Imediatamente à cessação dos efeitos primários, prevalece também a falta de apetite. O relato dos usuários descreve inicialmente uma sensação de tontura semelhante à embriaguez. Essa sensação é a primeira manifestação da droga. Em seguida, perde-se a sensação de peso do corpo e o sujeito sente como se estivesse flutuando. A partir daí todos ao seu redor parecem amigos (o super ser humano).
Dependendo da quantidade que foi ingerida, quando os efeitos passarem o indivíduo vai se sentir desanimado, querendo "voltar pra casa". Ao deitar, os sintomas causados pela febre vão dificultar o adormecimento, e serão horas de tremores, suor frio intenso e náuseas, acompanhados de pensamentos frenéticos e irritação causada pela alta sensibilidade dos sentidos (é o que se costuma chamar de “fritando no gelo”).

Raves presenciadas pelo EXU

Inter - Campeão Mundial Interclubes 2006

10 Dezembro 2006

Edição 01 - Dezembro de 2006


Barreira na rodovia

A Kombi tinha placas de Gravataí. Voltava da região de Passo Fundo em direção à capital. Na frente, ao lado do motorista, viajava um homem de 38 anos, foragido e com mandado de prisão expedido pela Justiça. Ele usa barba e utiliza documentos falsificados. Na parte de trás do veículo iam três menores de idade, duas meninas gêmeas de 9 anos e um bebê de colo, junto com a mãe. No volante o pai das crianças.

Durante o trajeto, logo após a parada do almoço, faltando uns cento e cinqüenta quilômetros para chegar a Porto Alegre, encontram uma barreira conjunta da Polícia Rodoviária Federal com a Brigada Militar. Os dois homens se olham em silêncio. O pai espia no retrovisor e constata que a mulher está amamentando. As gêmeas discutem por causa do Nintendo, que uma monopoliza em detrimento da outra. A mulher, sem afastar a criança do peito, apanha no chão e coloca em cima do banco, junto ao corpo, uma bolsa plástica cor-de-rosa e branca com motivos Disney.

Logo à frente, cerca de 200 metros antes do bloqueio em ambos os sentidos da rodovia, dois brigadianos de sub-metralhadora nove milímetros, um em cada lado da pista. Um terceiro, guarnecido por outro policial militar (armado de calibre doze cano longo), sinaliza para os veículos irem reduzindo a velocidade. Pouco mais adiante, exatamente no ponto onde a Kombi parou no final da fila de carros, ainda antes dos cavaletes que isolam do trânsito os veículos sorteados aleatoriamente, dois patrulheiros rodoviários estão parados no acostamento à direita da pista, ao lado de suas Kawasaki Ninja 1100*.

As gêmeas continuam brigando pela posse do game portátil, a mulher segue alimentando o bebê e os dois homens permanecem impassíveis. O veículo é novo, menos de quatro anos de uso. Documentação em dia, parte elétrica revisada, nenhuma lâmpada queimada, sinaleira quebrada, pneu careca ou qualquer coisa que pudesse causar problema.**

O motorista encosta e pára. Um brigadiano de óculos escuro e jeito de durão inescrupuloso se aproxima. Pede documentos do veículo e do motorista. Outro policial contorna a Kombi e bate com o cacetete na porta de trás, querendo espiar lá dentro. O homem ao lado do motorista retira o cinto de segurança, vira-se e destrava a porta de correr. As gêmeas agora estão em silêncio, a mulher recolheu a teta e o bebê ainda não arrotou. No chão do carro, entre os bancos de trás virados um para o outro, além de algumas malas, sacolas com frutas e legumes, há uma roda de Brasília montada num pneu careca.

O policial que pediu os documentos, depois de fazer a conferência padrão, liberou o veículo. A Kombi passou incólume pelo bloqueio e andou cerca de dois quilômetros, antes de ser alcançada pelas motos Ninja. O policial rodoviário deu sinal de luz, acionou a sirene e mandou encostar. O motorista obedeceu prontamente, apesar de surpreso e, agora sim, visivelmente nervoso.

O senhor não está esquecendo de nada? Não. Então posso lhe multar por trafegar numa rodovia federal sem a carteira de habilitação e os documentos do carro?

O veloz homem da lei, além de devolver os documentos, ainda desejou boa viagem e perguntou a idade do bebê. A história poderia terminar aqui, mas uma parte do iceberg está submersa e precisa vir à tona: na bolsa plástica cor-de-rosa e branca com motivos Disney, embaixo das fraldas cagadas e mijadas, foram acomodados cinco quilos de maconha; no pneu careca e sem câmara montado na roda de Brasília havia 1,5 Kg de cocaína.

*Uma Ninja 1100 percorre de zero a 100 Km/h em míseros segundos e pode atingir mais de 290 Km/h de velocidade final. Também é um bilhete premiado da morte, mas o motoqueiro nunca considera essa hipótese.

**Aqui, justamente neste ponto da história, manifesta-se o fator sorte: a troca do motorista, poucos quilômetros antes do bloqueio, no posto de gasolina aonde o grupo parou para abastecer e almoçar na churrascaria ao lado. Quem iniciou a viagem de volta foi o homem foragido, com identidade falsa e sem carteira de motorista. Obviamente esse desleixo foi considerado erro gravíssimo, segundo avaliação posterior de um dos protagonistas, no caso a pessoa que me contou a história.

Aviso ao navegante

Ao contrário do que parece, considerando este blog, informo aos leitores e amigos que o projeto do próximo livro não é sobre crimes, facínoras e coisas do gênero. É um livro com título bem simpático e sem trocadilhos: Álbum de família.

Detalhe significativo: a família em questão é rodrigueana.

Disque-pichação

Traficante viciado, gigolô apaixonado, puta beijando na boca e um molusco na presidência: q país é esse?

A frase acima está no tapume de uma obra no centro de Porto Alegre. Assim mesmo, sem erro de português, salvo o "que" abreviado. É ridícula, mas bem-humorada. Aliás, pichação dá cana. A Prefeitura daqui inclusive mantém um Disque-Pichação, operado pela Guarda Municipal e sob a coordenação da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Segurança Urbana. À frente está a delegada Rejane Telles. Várias prisões foram realizadas desde a criação do serviço.

As informações acima podem ser consideradas o enchimento da lingüiça. Foi o tapume que me levou a escrever este post.

Aos 16 anos, protagonizei uma célebre sacanagem que é lembrada até hoje por quem foi adolescente no bairro Ipanema da década de 80 (segunda metade). Na verdade fui o mentor da picardia, e o único motivo para eu falar a respeito neste espaço é o fato de que o episódio foi descrito no conto “Irmãos Gêmeos”, criado durante a Oficina de Criação Literária da PUCRS, em 1992. Era um conto grande, completamente fora do padrão enxuto que persigo hoje. Por sugestão do Luiz Antonio de Assis Brasil, guardei o texto na intenção de transformá-lo em romance. O esqueleto do romance permanece guardado.

Eis o fato, a conseqüência e seus desdobramentos: próximo a casa de meus pais, numa rua de grande movimento, onde passam ônibus e lotações a caminho do centro, havia um chalé de madeira que ocupava um terreno enorme. Ali morava uma adolescente que vou chamar de Adriane.

Adriane não era a mais bonita, nem a mais sexy ou desejada do bairro. Era uma baixinha gostosa, chegou a participar de concursos de beleza do tipo rainha do colégio e broto qualquer coisa, levando sempre o título de Miss Simpatia.

Ela vivia no meio dos guris, fazia coisas que as outras meninas condenavam e às vezes era difamada injustamente por causa de seu jeito moleque. Ela andava de moto, montava cavalo no pêlo, jogava futebol e até brigava como homem, aplicando jab, cruzado e golpes de capoeira.

Por tudo isso foi uma de nós, até o dia em que os brigadianos flagraram ela e duas amigas fumando maconha à beira do Guaíba. Pressionada pelos pais e a polícia, denunciou os amigos. Outros pais foram acionados, houve represália geral, castigos, ameaças. Adriane foi perdoada, mas houve consenso sobre a necessidade do corretivo.

Em frente a sua casa tinha uma parada de ônibus. Do outro lado da rua, protegendo a mansão de um vizinho rico, havia um enorme muro branco com quinze metros de comprimento e quatro de altura. Naquele muro, durante a madrugada, pichamos em letras gigantes: ADRIANE BOQUETE. A publicação teve repercussão imediata e o muro foi pintado na mesma semana. No dia seguinte voltamos ao local do crime para reafirmar o castigo, deixando uma nova mensagem em letras ainda maiores. É BOQUETE SIM! permaneceu impresso durante meses e até a delatora acabou aceitando a penalidade.

Hoje em dia, quase vinte anos depois, o episódio é lembrado com humor e catalogado como imprescindível no anedotário do bairro Ipanema.

A propósito: se alguém de Porto Alegre quiser utilizar o Disque-Pichação, basta ligar para o número 153. O serviço funciona 24h.

ESTUDO ANTROPOLÓGICO

Semana que vem: publicação do resultado da pesquisa de campo desenvolvida sobre o fenômeno RAVE em Porto Alegre.