Trecho inédito da
novela "Segunda-feira"
04h50
Ainda está acordado. Mônica dorme. Não houve penetração durante o sexo, apesar das reiteradas investidas de Jorge. Suas tentativas, entretanto, resultaram numa rápida e eficiente sessão de sexo oral. Em princípio ela não queria, mas cedeu, com certo ar de tédio até, apesar dele não ter percebido o automatismo na parte mecânica do ato. Afinal, que custa ceder a um capricho?
Não obteve nenhuma informação relevante. Ela adormeceu e ele ficou sabendo apenas que o dinheiro seria entregue à tarde, depois das 15h. Isso significa que não poderá fazer pessoalmente os pagamentos. Mônica ficou incumbida da função. No mesmo horário ele estará acompanhando a deputada numa agenda com a governadora do Estado, que será convidada para abrir o evento patrocinado pela ONU.
Lá fora a chuva continua. Se estivesse num dia normal, o martelar da água na persiana seria um poderoso sonífero. Jorge não consegue descansar a mente e novas hipóteses afloram. Teria ela cedido para que não desconfiasse de alguma coisa? Uma rápida felação era o mesmo que revogar temporariamente a cláusula do sexo vetado em dias de labuta? Estaria ela fazendo em casa o que fazia no trabalho e tudo no mesmo dia, ao contrário de antes, apenas para que ele não desconfiasse que voltou ao antigo ofício?
Deitado, vira-se na cama pela enésima vez. O sono foge. Não consegue encontrar uma posição confortável. Ouvir o ressonar tranquilo de Mônica é perturbador. Parece que ela não se importa com as contas vencidas, ou a ameaça da imobiliária. Os pagamentos atrasados, sempre correndo atrás da máquina, todo mês no vermelho ou pedindo dinheiro emprestado. Faz cinco meses, no mínimo, que não conseguem pagar em dia as faturas. Desde que acabou o dinheiro guardado por Mônica. O valor recebido em trinta dias de trabalho como garçonete, fora gorjetas, é a quantia equivalente a quatro clientes. Trocando em miúdos, o mesmo dinheiro que costumava obter em apenas dois dias.
E ainda tem os filhos. O dinheiro enviado a eles é bem menos do que a ex-mulher reivindica. A vaca trabalha, recebe pensão do falecido pai, poderia manter a casa sozinha e a ele caberiam despesas como educação, saúde, roupas, mesada dos meninos. Ainda bem que não sabem quanto recebe no frila com a deputada, nem que está para ser nomeado num cargo de confiança.
Perdeu o sono. Resolve fumar outro cigarro. Senta-se na cama. Calça o par de chinelos e se levanta devagar. Sai do quarto e fecha a porta. Não quer barulho ou luminosidade atrapalhando o sono leve de Mônica. Em cima da mesa da sala, apanha o maço de cigarros e o isqueiro. Abre a janela, acende um cigarro. A neblina espessa cobre os últimos andares dos prédios mais altos. Chuva recém parou, não há vento e o calor continua. Em pé, debruçado na janela, observa lá de cima a solidão das ruas desertas.


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