29 Junho 2009

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Parte 1 - Jorge inventou o xibiu

A internet é um veículo sem precedentes, considerando as possibilidades de alcance da mensagem. O jornal impresso, por exemplo, tem uma tiragem diária e a partir dela é possível mensurar a audiência, usando a fórmula do número chutado que se inventa como padrão para cálculo de leitores por exemplar. As mídias eletrônicas, por causa dos institutos de pesquisa, também são passíveis de auditoria em termos de ouvintes e telespectadores por minuto.

Terra de ninguém - Na web é fácil estimar a audiência de um conteúdo autêntico, gerado e controlado pelo autor. Estranho é descobrir para onde vai esse conteúdo quando alguém divide o todo e atira pedaços ao vento. Não chega a ser a síndrome Martha Medeiros, que reclama de textos roubados e outros literariamente pobres cuja autoria lhe é atribuída. O que um autor de ficção nunca imagina é o tamanho da distância que o conteúdo percorre quando alguém resolve, por conta própria, repassar uma informação retirada da rede. Mais inusitado ainda é tomar conhecimento da utilidade e da variedade de aplicações que o texto ficcional pode ter.

Censurado para menores – No conto Adalgisa, reproduzido em sites e portais literários, mal publicado em “Contos para ler Cagando” e depois impresso em versão definitiva no livro “No Orkut dos outros é colírio”, a história narrada aborda a descoberta da sexualidade e as primeiras aventuras de um adolescente que gosta de meninas. Ao escrever belas cenas de amor e sexo, de vez em quando uma curra, Jorge Amado imortalizou o xibiu. Para mim, autor estreante, restou o hímem rompido.

No site chamado Yahoo! Respostas, uma adolescente faz perguntas sobre sexo. Quem responde, supostamente médico ou alguém habilitado na área de Saúde, indica como leitura ilustrativa justamente a primeira versão capenga do conto Adalgisa, e no final ainda dá crédito ao autor. Segundo o Yahoo!, portanto, sou autoridade em cabaço. Não acreditas?

Confere a íntegra da bizarrice.

E G O T R I P
O mundo a seus pés

A primeira impressão é a que fica? Talvez. Pior ainda é quando um parecer de avaliação utiliza diferentes pesos e medidas. Em terra firme, não há como medir distância e velocidade calculando nós e milhas náuticas.

O que eu sou, aos quase 37 anos? Considerando a tabela de valores que alguns utilizam, é bem provável que eu seja muito pouco. Como jornalista, para ter valor, decerto hoje eu deveria estar apresentando o Jornal Nacional. Como escritor, para ser levado a sério, talvez eu já devesse ter vencido o Nobel de Literatura.

O período que passei em rádio e jornal, os prêmios que conquistei desde os tempos da faculdade, não devem ter importância nenhuma. Como assessor de imprensa, ter atendido um governador, três deputados, um secretário de estado e uma vereadora na Câmara Municipal, além de nunca ter ficado desempregado desde que me formei, também não importa.
Será que nada disso importa, para alguns, porque apesar de tudo eu não tenho um patrimônio para ostentar meu sucesso e mostrar a todos que venci na selva capitalista? Não tenho dúvidas que sim, para essas pessoas, nada disso importa se não houver retorno financeiro imediato.
Hoje em dia ninguém sonha
em ser Nelson Rodrigues ou Jorge Amado?
Meu objetivo é escrever ficção, meu ganha-pão é o mal remunerado trabalho como jornalista. Na carreira de escritor, que é um trabalho para toda vida, considerando minhas tabelas de valores, e elas são as mesmas utilizadas pelas pessoas que sabem a dificuldade de ser um autor de ficção no Brasil, estou muito distante dos rótulos de acomodado e sem ambição.
Se eu fosse um merda, meu nome jamais teria saído nos jornais quando lancei meu livro, nem seria convidado para entrevistas em rádio e tevê. E também não estaria preparando um novo livro, que apenas no planejamento da estrutura, forma e conteúdo, levou quase dois anos. Escrever ficção não é fácil, precisa ter o dom da palavra. É um processo sofrido, dolorido e solitário. Existem leitores contumazes, verdadeiros ratos de livraria que, com certeza, já leram muito mais do que eu e têm inúmeras histórias para contar, mas não saberiam como fazê-lo. E assim é com 99,9% das pessoas.
Para alguns, aparentemente, não há mérito em ser lembrado ao longo do tempo, não é importante deixar vivo o pensamento e as idéias através da palavra, “falando” para gerações de leitores e entrando na mente de pessoas que a gente nunca viu. Ser lembrado como artista não é importante. E as pessoas que não têm paciência e esperam resultados imediatos, talvez nunca alcancem o que isso significa. Questão de valores e visões de mundo.
Fazer o quê? Nada, além de aceitar e respeitar as opiniões contrárias. Cada um com seus valores. Para mim, fazer uma carreira como escritor é bastante ambicioso. Espero que o talento seja compatível à pretensão.
O que está reproduzido abaixo foi retirado do antigo blog. É uma análise de um conto de minha autoria, feita pelo escritor que aqui será chamado Senhor X, que é doutor em literatura e deve entender alguma coisa do assunto. Eu sempre releio o que X escreveu, e isso não me deixa esquecer quem sou e a que vim.

Análise e interpretação de quem estudou o assunto
A partir da internet, de onde surgi, inúmeros contatos foram realizados e alguns acabaram se transformando em projeto. Ganharam vida fora do mundo virtual. Minha ida à FLIP, o lançamento de “Contos para ler cagando”, a breve participação na última Feira do Livro de Porto Alegre, o surgimento da editora Casa Verde, o lançamento de FATAIS, algumas entrevistas e vários contatos com outros autores e muitos acadêmicos, sobretudo estudantes de jornalismo e letras.
O mais recente destes contatos realizados pela internet foi transcrito abaixo, de forma resumida. O autor do e-mail é o Senhor X *.
“Conheci teu site e teus textos, através de um e-mail que o Marcelo Spalding me enviou divulgando o projeto Fatais. Na verdade, já tinha lido teus minicontos naquela exposição que a AGEs organizou na Casa de Cultura Mario Quintana,da qual fiz parte também. Bom, o negócio é que gostei muito do teu jeito de escrever. Direto, porrada, retratos cruéis e vivos da uma realidade poucas vezes abordada, acho, na literatura produzida por aqui.
O Faraco talvez faça alguma coisa na direção deste mundo que tu resolveu, escolheu, sei lá, ficcionalizar, e que faz com maestria. Teu conto "Joel" é de uma dor contida extrema. A virada no último parágrafo que desatina o leitor, fazendo-o perceber a história sobre um prisma totalmente diferenciado do que o narrador vinha construindo. Bah, Caco, é dor plena, desacorçoa, sacode a gente. Função maior, creio, da Literatura. Da boa Literatura. Aquela com L maiúsculo e que tu tá fazendo bem demais, cara. Contos como Tejada, Beijinho do tio, entre outros, são exemplos do que falo.
É isso. Sou escritor também, mas sobretudo leitor e quando me deparo com textos fortes e emocionados, embora aparente uma crueza e uma sordidez sem tamanho, não consigo ficar calado, tenho que fazer ouvir o eco do que me provocaram.”

RESPONDI ASSIM:
“Quero te dizer Muito Obrigado, humilde e sincero. Tuas palavras demonstram que o caminho está certo. Vale a pena todo esforço e dedicação, apesar da falta de tempo para escrever e da ausência de retorno financeiro. Não é por isso que escrevemos, tu bem sabes. Importante é saber que o eterno aprendizado é longo, e árduo. Na literatura e na vida também. É o que penso. Grande abraço ! CACO”

TRÉPLICA:
“De fato, Caco, saber, para quem escreve, que suas palavras ficcionais e seus mundos inventados são capazes de ecoar naquele que nos lê, saber também que nossas palavras são capazes, depois de soltas, de chegar sabe-se lá onde, em quem, é sempre alegria e expectativa. Pelo menos comigo é assim. Por vezes, um e-mail, um torpedo, uma carta, um breve comentário em um lugar qualquer, dando conta do quanto nossa possibilidade de real tocou este ou aquele ser, sempre é bom quando bate à porta de nossa emoção, meio de surpresa. Com teus textos, foi assim, como já te disse. Desta forma, nada tem a agradecer, companheiro, ao contrário. Se há alguém merecedor de agrado é tu, que me possibilitou mergulhar em teus mundos tão cheios de emoção e desacomodamento. Obrigado.”

*Senhor X é bacharel em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, e licenciado em Letras - Língua Portuguesa e Literatura, pela Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras - FAPA/RS; é Mestre e Doutor em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e professor de Literatura numa universidade.

26 Junho 2009

Sete perguntas e respostas sobre
oficinas de criação literária

Carolina Petry Matchenbacher estuda jornalismo na PUCRS. Ela fez contato pelo Orkut, depois encaminhou perguntas por e-mail. Trata-se de um trabalho sobre oficinas de criação literária.
Reproduzo abaixo perguntas e respostas. Na foto que ilustra o post estão Gabriel Moojen e Luiz Antonio de Assis Brasil, além de mim. Foi no lançamento do livro Contos de Oficina 10, em 1993.

Nome: Caco Belmonte (Ricardo Villar Belmonte).
Profissão: Jornalista.
Cidade onde mora: Porto Alegre.
Cidade onde ocorreu a oficina literária: Porto Alegre; Parati (RJ).

01) Como tu descobriste as oficinas literárias?
Em 1991, aos 19 anos, meu irmão (também jornalista: Roberto Villar Belmonte) me apresentou a uma ex-aluna da Oficina de Criação Literária da PUCRS. Neifla Maria Rigon frequentou a sexta edição do curso. Ela explicou que, para ingressar, era necessário enviar três textos que seriam avaliados pelo Assis Brasil e a professora Regina Zilbermann, se não estou enganado.

Fiz os textos, enviei e fui selecionado. Eram nove candidatos por vaga. Na décima edição da oficina, também participaram Amílcar Bettega Barbosa, Gabriel Moojen e Berenice Sica Lamas, além de outros que ainda devem estar escrevendo, mas não tiveram a mesma sorte ou competência dos citados acima. Até aquela edição, ninguém com menos de vinte anos fora selecionado. Eu recém havia ingressado na Famecos. Na verdade, naquele final de ano passei no vestibular e entrei na oficina.

02) Por que participaste de uma?
Entrei para aprender as técnicas que eu já sabia existirem, conseguia identificá-las durante as leituras, mas não sabia como eram aplicadas durante a construção do texto, nem que poderiam servir para reforçar o conflito e a trama. Enfim, antes da oficina da PUCRS eu era quase um ignorante literário, mas já era um leitor atento.
03) Quando participaste?
Respondido na número 1.

04) Como funcionaram as oficinas das quais tu pasticipaste?
O oficina da PUCRS funcionava, não sei agora como está, em dois módulos de seis meses cada. Eram estudados forma e conteúdo: construção das personagens, vozes do discurso, tipos de narrador, uso do tempo e espaço, etc... A oficina ministrada pelo amazonense Milton Hatoun, durante a II Festa Literária Internacional de Parati (Flip), foi sobre o gênero romance e teve a duração de apenas três dias. Um aperitivo, se comparado aos 12 meses de estudo na PUCRS. Era por convite, e participaram vários autores estreantes do todo Brasil. Do Rio Grande do Sul, além de mim, também estavam Cardoso, Carol Bensimon, Milton Rodrigues e Marcelo Benvenutti.

05) Quantas pessoas participaram contigo?
PUCRS (12 pessoas); Flip (mais de 30).

06) O que tu mais gostaste nas oficinas?
Para mim, o mais importante foi aprender a desmontar o texto, identificando as técnicas utilizadas pelo autor. Sem esse aprendizado é impossível escrever ficção.

07) Teve alguma coisa que não gostou?
No meu caso não houve nada que eu não gostasse, pois estava no aprendizado do ofício para o qual me propunha.

25 Junho 2009

O retorno


Faz quase dois anos que nada publico aqui. Após o fim das atividades em "Cacos - O ofício solitário do autor desconhecido", criei "O Exu Literato" e fiz as primeiras postagens. Houve um início empolgante, com exercícios de criação e até jornalismo literário.

Desde o começo do primeiro blog, em outubro de 2003, até a última postagem antes desta, em julho de 2007, muita água deslizou pelo cano. Quase seis anos desde o fim da virgindade na Internet, e praticamente dois anos em silêncio absoluto. Naquele tempo, colunistas e jornalistas importantes não escreviam para o meio digital por intermédio do blog, nem contratavam estagiários para alimentá-los à exaustão. Via de regra, ainda hoje, temos três tipos principais de blog assinado por escritor ou jornalista: informação, criação literária e umbigo.

Não quero fugir à regra, e também não tenho competência para inventar uma terceira via mais criativa. Por isso volto em silêncio, sem alarde ou spam. Aos que chegaram até aqui, sejam bem-vindos de volta. Àqueles que nunca estiveram, fiquem à vontade.

O que está publicado abaixo é um trecho da novela Segunda-feira, ainda em fase de edição e com lançamento previsto para dezembro deste ano ou março do ano que vem.

Caco Belmonte

Trecho inédito da
novela "Segunda-feira"

04h50

Ainda está acordado. Mônica dorme. Não houve penetração durante o sexo, apesar das reiteradas investidas de Jorge. Suas tentativas, entretanto, resultaram numa rápida e eficiente sessão de sexo oral. Em princípio ela não queria, mas cedeu, com certo ar de tédio até, apesar dele não ter percebido o automatismo na parte mecânica do ato. Afinal, que custa ceder a um capricho?

Não obteve nenhuma informação relevante. Ela adormeceu e ele ficou sabendo apenas que o dinheiro seria entregue à tarde, depois das 15h. Isso significa que não poderá fazer pessoalmente os pagamentos. Mônica ficou incumbida da função. No mesmo horário ele estará acompanhando a deputada numa agenda com a governadora do Estado, que será convidada para abrir o evento patrocinado pela ONU.

Lá fora a chuva continua. Se estivesse num dia normal, o martelar da água na persiana seria um poderoso sonífero. Jorge não consegue descansar a mente e novas hipóteses afloram. Teria ela cedido para que não desconfiasse de alguma coisa? Uma rápida felação era o mesmo que revogar temporariamente a cláusula do sexo vetado em dias de labuta? Estaria ela fazendo em casa o que fazia no trabalho e tudo no mesmo dia, ao contrário de antes, apenas para que ele não desconfiasse que voltou ao antigo ofício?

Deitado, vira-se na cama pela enésima vez. O sono foge. Não consegue encontrar uma posição confortável. Ouvir o ressonar tranquilo de Mônica é perturbador. Parece que ela não se importa com as contas vencidas, ou a ameaça da imobiliária. Os pagamentos atrasados, sempre correndo atrás da máquina, todo mês no vermelho ou pedindo dinheiro emprestado. Faz cinco meses, no mínimo, que não conseguem pagar em dia as faturas. Desde que acabou o dinheiro guardado por Mônica. O valor recebido em trinta dias de trabalho como garçonete, fora gorjetas, é a quantia equivalente a quatro clientes. Trocando em miúdos, o mesmo dinheiro que costumava obter em apenas dois dias.

E ainda tem os filhos. O dinheiro enviado a eles é bem menos do que a ex-mulher reivindica. A vaca trabalha, recebe pensão do falecido pai, poderia manter a casa sozinha e a ele caberiam despesas como educação, saúde, roupas, mesada dos meninos. Ainda bem que não sabem quanto recebe no frila com a deputada, nem que está para ser nomeado num cargo de confiança.
Perdeu o sono. Resolve fumar outro cigarro. Senta-se na cama. Calça o par de chinelos e se levanta devagar. Sai do quarto e fecha a porta. Não quer barulho ou luminosidade atrapalhando o sono leve de Mônica. Em cima da mesa da sala, apanha o maço de cigarros e o isqueiro. Abre a janela, acende um cigarro. A neblina espessa cobre os últimos andares dos prédios mais altos. Chuva recém parou, não há vento e o calor continua. Em pé, debruçado na janela, observa lá de cima a solidão das ruas desertas.