27 Abril 2010

O BENEMÉRITO

BR 290. Duas e meia da tarde. O automóvel Vectra prata, modelo Elite, avança veloz pela rodovia. Desliza macio, apesar do asfalto irregular. Cento e sessenta e cinco quilômetros por hora. Na frente, ao lado do motorista, viaja o prefeito. Ele aproveita o trajeto para repassar o discurso que fará logo mais, durante a solenidade de entrega do prêmio que receberá à noite.

No banco traseiro viajam a mãe do prefeito e a primeira-dama. Os compromissos da agenda se iniciam às quatro e meia da tarde. Têm audiência com a governadora. Vão entregar um relatório sobre projetos desenvolvidos com recursos do estado pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania. No encontro também estará o presidente estadual do partido, com quem pretende conversar sobre uma possível candidatura à deputação estadual.

Administra uma cidade de cento e cinquenta mil habitantes, a pouco mais de quatrocentos quilômetros da Capital. É sua quarta vez à frente da prefeitura. Após dois mandatos intercalados, ficou de fora quatro anos e elegeu-se pela terceira vez, reelegeu-se e está no segundo mandato consecutivo. A última eleição foi renhida, disputada voto a voto até o término da apuração.

Na cidade, erradicou o analfabetismo da zona rural, criou o Programa de Saúde da Família no Campo e fomentou a criação de cooperativas, reunindo os produtores da região. Com a industrialização dos cereais, em seis anos a renda per capta do município praticamente dobrou. Por causa desse desempenho conquistou vários prêmios, incluindo um concedido pela Unicef. Graças a essa premiação, obteve reconhecimento nacional, concedeu entrevista no Programa Jô Soares e foi convidado a visitar diversos países nos continentes europeu, africano e asiático.

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O motorista diminui a velocidade do carro ao passar em frente a um posto da Polícia Rodoviária Federal. Pela janela os ocupantes vêem os agentes entretidos com orientações a um comboio de turistas argentinos. Cruzam o posto.

Prefeito consulta o relógio e manda acelerar. Chofer obedece. Pisa fundo e o automóvel começa a ganhar velocidade. Na quarta marcha o motor libera a segunda fase do turbo. O carro dá um solavanco quase imperceptível e dispara. Na quinta já estão a cento e setenta quilômetros por hora. O anti-radar contrabandeado do Uruguai, com sensor afixado no pára-brisa, avisará se houver sinalização eletrônica à frente.

Ao volante está um condutor experiente. Vasconcelos, sargento da Brigada Militar, veterano de caserna, cedido à prefeitura. O município custeia salário e paga função gratificada, além de diárias e benefícios concedidos. É homem de confiança. Cumpre as funções de motorista, segurança e assessor particular. Foi indicado por um ex-governador, para quem prestou serviços na Casa Militar.

Além de entrevistas agendadas em duas rádios da Capital, à noite receberá o prêmio Líderes e Vencedores, oferecido pela Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul e a Assembléia Legislativa. Também irão à Cúria, onde têm audiência agendada com o arcebispo da região metropolitana, velho amigo da família.