HÁBITO DE PÁSSARO É O CÉU

Richard Serraria.

No sábado, 21 de março, celebramos mais um Dia Mundial da Poesia. A data foi instituída pela Unesco no final do século passado. 

Às vezes, reúno retalhos de textos e faço uma colcha maior. Mosaico de informações fractais. Cada parte pode ser lida em separado e todas compõem o conjunto maior. Não me achar um poeta, imagino, é o primeiro passo para que um dia eu consiga, eventualmente, roçar o espírito da coisa. Não arrisco poemas, sempre os achei dificílimos e preferi a prosa, ainda que possa surgir alguma imagem poética em minha ficção.

Se eu fosse poeta, esconderia no texto a palavra não escrita. Abriria mão das rimas fáceis. As frases seriam musicais e a melodia perceptível no ritmo. A cadência viria em padrões exclusivos, como a íris dos olhos e as impressões digitais. As palavras que vertessem de mim, fluiriam como pepitas. Pedras garimpadas de veios ancestrais, preciosas imundas sem polimento, atiradas num canto qualquer, despercebidas porque quase ninguém enxergou valor em sua imundície superficial. 

Como não sou bardo, e sim um esforçado prosador do cotidiano, prefiro não escrever bobagens sobre o gênero. 

Já está em produção, selecionado no edital do Fumproarte da Prefeitura de Porto Alegre (Projetos de Identidade e Memória), o mais recente livro do músico e poeta Richard Serraria. "Hábito de pássaro é o céu" tem previsão de lançamento para setembro deste ano. Cancionista popular pesquisador da cultura afro-gaúcha, mestre em Literatura Brasileira e  doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Richard Belchior Klipp Burgdurff é o Serraria de sangues guarani, negro, alemão e russo. "Pelodurismo legítimo, com muito orgulho", afirmou em entrevista concedida a Juarez Fonseca para o jornal Zero Hora. 

O nome do bairro porto-alegrense foi adotado como artístico ao fundar, em 1997, a banda Bataclã FC (todos os integrantes identificavam o nome com seus bairros ou vilas de origem). Na carreira musical de Richard, o Serraria, foram três discos com a banda, quatro solos e um CD/DVD com o grupo Alabê Ôni. Entre os reconhecimentos que recebeu até o momento, oito prêmios Açorianos conquistados. Em 2005 e 2006, ganhou o prêmio de melhor letrista no Festival de Música de Porto Alegre. Em 2009, dividiu o lugar de melhor letrista do Prêmio Uirapuru de Música Brasileira com o consagrado Tom Zé. Em 2021, recebeu o Kikito em Gramado pela trilha sonora do filme "Cavalo de santo" realizada pelo Alabê Ôni na Mostra de Longas Gaúchos. Se eu continuar a listar as conquistas de Richard Serraria, e ainda a sua carreira docente, ninguém mais lembrará que o texto é para falar do novo livro.

Richard, admirador de Carlos Drummond de Andrade e especialista em João Cabral de Melo Neto, que conheceu pessoalmente e a quem dedicou uma dissertação de mestrado, foi um adolescente secundarista no Colégio Júlio de Castilhos, o prestigiado Julinho, onde impressionou-se com a leitura de Rimbaud.

Seu livro de estreia, Sopaporiki, restou construído de tal forma que o sopapo, instrumento de percussão genuinamente gaúcho criado por homens escravizados da zona sul do Estado, assume a cosmogonia dos doze orixás. No primeiro capítulo o sopapo é o Bará, no segundo é o Ogum, no terceiro é Iansã, no quarto é Xangô, e assim até chegar a Oxum, Iemanjá e Oxalá, que é o décimo segundo. A obra foi lançada em 2020 (Editora Escola de Poesia Amerfricana). Sopaporiki recebeu indicação ao Prêmio Minuano de Melhor Livro de Poesia.  

Para falar do livro mais recente de Richard Serraria, antes de publicar ao final um lambisco da obra poética que está por nascer, tomo emprestado as palavras de outro craque (nem falei aqui sobre a paixão do músico pelo futebol, ex-jogador das categorias de base em mais de um clube, incluindo o seu amado Grêmio).

Adriano Moraes Migliavacca, da Escola de Poesia Amefricana, doutor em Letras pela UFRGS, tradutor e poeta, articulista cultural no portal do jornal O Estado de São Paulo (Estado da Arte), escreveu a respeito de "Hábito de Pássaro é o Céu":

"Hábito de pássaro é o céu, poemário de Richard Serraria, é uma obra de especial importância por articular uma diversidade de referências africanas, europeias e americanas e fazê-lo de forma a valorizar a identidade e a memória da cultura negro-gaúcha particularmente como se mostra nas tradições presentes em territórios negros da cidade de Porto Alegre. 

A poesia como forma de expressão literária busca um equilíbrio entre conteúdo e forma, a mensagem e a dimensão estética da linguagem constituindo matéria de trabalho. A importância da dimensão estética da linguagem se fortaleceu com as vanguardas literárias do século XX. Valendo-se dessas pesquisas estéticas, a obra de Richard Serraria revisita símbolos e mitos das tradições negras e africanas e as torna vivas nos territórios negros de Porto Alegre. Nomes de divindades, objetos e símbolos sagrados de origem africana convivem com nomes de territórios e personalidades negras de grande importância para a história desta cidade, a própria sonoridade de tais nomes carregando-se de força e significado. Hábito de Pássaro é o Céu é uma obra que celebra a história das tradições negras, historicizadas nos territórios negros de Porto Alegre, em um nível muito profundo, para além da dimensão narrativa ou explicativa, e reflete os valores dessa historicidade na sonoridade, no ritmo e na visualidade das palavras em que os reconhecemos. 

Acima de tudo, a obra de Richard Serraria dialoga com poéticas orais e a música de origem africana e negro-gaúcha, particularmente a literatura oracular iorubá e a poética dos tambores, tendo o autor se aprofundado na pesquisa sobre o tambor conhecido como sopapo, de importância central na música e na poesia negro-gaúcha, cujo uso em Porto Alegre foi registrado já no século XIX. Ao dar centralidade à dimensão rítmica do trabalho literário, a obra Hábito de pássaro é o céu envereda para a noção de tamboralitura, em que a palavra viva ganha corporalidade poética ao redor do tambor. Em outras palavras, na obra de Richard Serraria, história e tradição negro gaúchas em Porto Alegre se fazem ritmo, som e sentido. 

O poemário Hábito de Pássaro é o Céu é, portanto, obra de grande valor por articular a universalidade das cosmogonias, dos símbolos e mitos de origem africana com a história da cidade de Porto Alegre e a cultura singular que se construiu e segue construindo nela. Nesse sentido, trata-se de uma obra que marca a pertença, em um nível muito profundo, da capital gaúcha no complexo cultural africano – que vem adquirindo cada vez mais importância em diversos lugares do mundo – e reafirma a riqueza da história e da produção cultural da cidade e do estado do Rio Grande do Sul como um todo. O livro contará ainda com prefácio da escritora Eliane Marques, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura, o que reforça sua relevância no cenário literário e atesta a qualidade crítica e estética da obra. 

O projeto nasce da experiência concreta da população negra em Porto Alegre, marcada historicamente por processos de gentrificação e racismo ambiental que deslocaram comunidades da Colônia Africana, no Mont Serrat, para a Ilhota e, posteriormente, para a Zona Sul, região em que se insere a trajetória familiar do autor. Mais do que expressão individual, o livro afirma uma memória coletiva de pertencimento e resistência, conectada à territorialidade negra e periférica. 

Com qualidade técnica e literária reconhecida, o projeto prevê a publicação de Hábito de pássaro é o céu em formato brochura, com tiragem de 300 exemplares, dos quais 90 serão doados a bibliotecas comunitárias, escolas e instituições públicas de Porto Alegre, garantindo democratização do acesso à literatura. Como medida de acessibilidade, será realizada a gravação de um audiolivro com poemas narrados pelo autor e por poetas convidados, acompanhado da sonoridade do sopapo, além da presença de intérprete de Libras em todos os eventos de lançamento. 

O lançamento acontecerá em duas sessões no Lunar do Sopapo, espaço cultural periférico localizado no bairro Vila Nova, região 12 do Orçamento Participativo. O Lunar do Sopapo caracteriza-se pela valorização da cultura negra, conta com uma biblioteca negro-centrada e uma biblioteca infantil amefricana, realiza oficinas de tamboralitura, apoia escolas da região na implantação de uma educação antirracista e mantém articulação com a UBS Calábria da rede  municipal de saúde, desenvolvendo atividades de musicoterapia. Autores como Ricardo Aleixo, Mário Pirata e o próprio Richard Serraria já lançaram obras nesse espaço, que também acolhe residências criativas. A primeira sessão será aberta à comunidade e a segunda terá caráter afirmativo, voltada a mulheres negras, indígenas e pessoas com deficiência, garantindo um recorte inclusivo e democrático. 

Dessa forma, o projeto entrega uma obra inédita de relevância literária, histórica e cultural, enraizada na experiência negra e periférica de Porto Alegre, com forte narrativa de pertencimento e valorização da memória coletiva, contribuindo para a cena literária da cidade e para a circulação da poesia contemporânea de matriz africana no Rio Grande do Sul."


Hábito

habito a saia, despejo a praia 

habito a trégua, despejo a légua 

habito a boca, despejo à língua 

habito a areia, desejo a sereia


habito a asa, despejo a casa

habito a face, desejo ah se 


habito sol à sombra, despejo lua míngua

habito arriba telha, desejo estrela centelha


hábito de abelha é o mel

hábito de pássaro é o céu.


Richard Serraria

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