"Marcelo Benvenutti é um nome que atravessa discretamente a história recente da literatura brasileira, mas que merece ser retomado. Sua trajetória começa no início dos anos 2000, quando Porto Alegre se tornava um polo de experimentação literária com a criação da editora independente Livros do Mal. Fundada por Daniel Galera, Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, a editora rapidamente se destacou como uma força renovadora da cena nacional, lançando autores que mais tarde se consagrariam, como Paulo Scott e Joca Reiners Terron - além, claro, dos já citados Pellizzari e Galera. Entre 2001 e 2004, foram nove livros publicados, todos recebidos com entusiasmo pela crítica e pelo público, consolidando a Livros do Mal como símbolo de uma geração que buscava romper com o formalismo e abrir espaço para novas vozes.
Nesse contexto, pela Livros do Mal, Benvenutti publicou Vidas Cegas (2002), obra que o colocou tanto ao lado dos nomes já mencionados, quanto de escritores como Paulo Bullar (Húmus, 2002) e Cristiano Baldi (Ou Clavículas, 2003 - e que publicaria mais tarde o excelente Correr com Rinocerontes, 2017, pela Não Editora). Esses autores representavam uma vertente mais marginal dentro do catálogo da Livros do Mal, menos incensada pela crítica, mas igualmente relevante para compreender a diversidade e a ousadia estética daquele momento. A escrita de Benvenutti, marcada por intensidade imagética e crítica social, dialogava (e ainda dialoga muito) com o espírito de ruptura que caracterizou a editora.
Agora, Benvenutti retorna com Sábados Vazios, obra autopublicada via Amazon. O livro surge como continuidade e reinvenção de sua voz literária, reafirmando o lugar de um autor que nunca se acomodou às convenções e que insiste em explorar os limites da linguagem e da experiência. Para quem ainda não o conhece, trata-se de uma oportunidade de descobrir um escritor que, mesmo longe dos holofotes, construiu uma obra singular, capaz de refletir tanto o desencanto quanto a vitalidade da literatura brasileira contemporânea.
Sábados Vazios possui 37 contos. Ainda que alguns sejam "pequenos" em extensão, eu não os classificaria como "minicontos" ou "microcontos". A propósito, odeio essa vaidade literária que eu vejo mais como moda do que como objeto de mérito. Sim, meu amigo, ok, você consegue escrever quatro linhas. Só não me diga que isso é uma história, que há uma narrativa ou uma grande verdade escondida ali. Vá caçar uma bananeira para amarrar um pônei nela, por favor. Não vejo qualidade nessa redução absurda. Só consigo encontrar duas explicações para esse fenômeno: produzir um unicórnio instagramável, ou para se encaixar num faetontismo vaidoso, para dizer que domina forma, a métrica, e que possui algum poder semi-místico de condensação. Cuidado, o sol é bem ali, e Antonio Carlos Viana também.
Benvenutti faz diferente. Ele tem a régua, e sabe acertar o compasso na folha. Manobra com maestria dentro do espaço curto, mas produz muita substância. Em "Vita-lata", por exemplo, um dos menores textos, utiliza da figura do cão de rua, o "caramelo" ou o "fiapinho de manga" amado por todos, para falar de exclusão social e de como a presença do abandonado, daquele que lambe suas próprias feridas, incomoda o cães que vivem nas casinhas de madeira na frente das casas e nas janelas dos prédios de apartamentos ("Quando o vira-lata passa, em silêncio respeitoso, todos os cachorrinhos das casas, latem em protesto"). A crítica social atravessa o subtexto. É subterrânea, como lençol freático, mas pungente.
Os contos não trazem personagens claramente definidos ou nomeados. O que se vê, em todos os textos, é a presença de uma espécie de "homem do subsolo". Um observador arguto e amargurado; cansado e machucado pela (e com a) vida humana - a sua e a dos outros.
Em contos mais extensos, como "Golan" e "O Jogador", ocorre a entrega de um material mais completo, mas amplo e aberto a diferentes interpretações. O leque se abre significativamente.
O autor lança mão da simplicidade para disfarçar sua erudição. E há muita aqui. A evocação direta em "Heresia" remete ao poeta francês Charles Baudelaire como símbolo da lucidez na embriaguez. Isso conecta Benvenutti ao decadentismo e ao simbolismo, onde o excesso e o vício são vistos como caminhos para a revelação estética. A "Roma decadente", em "Golan", traz a imagem da cidade como podre de vícios, e ecoa tanto o imaginário de autores como Huysmans quanto a crítica cultural de Pasolini. A mistura de framboesas e mísseis, lágrimas laranja e vozes árabes em italiano cria um surrealismo político e religioso.
Em "Heroísmo", a ideia de que “heróis necessitam da desgraça alheia” lembra a crítica nietzschiana ao altruísmo e ao heroísmo como construções dependentes da dor dos outros. Trata-se de um "heroísmo trágico". Há também ecos de Dostoiévski, na tensão entre bondade e crueldade.
A escrita de Marcelo Benvenutti se estrutura na fragmentação: Os trechos são compostos de imagens rápidas, quase alucinatórias, que não se preocupam com linearidade narrativa. Isso aproxima o autor de uma escrita poética em prosa. Há também contrastes violentos, como framboesas e mísseis, bondade e exclusivismo, lucidez e embriaguez. A justaposição cria choque e desconforto, recurso típico da literatura de vanguarda. E também há sempre um tom confessional, uma voz que se expõe, que admite fraqueza, vício, crueldade. Isso dá ao texto uma densidade existencial, como se fosse diário íntimo transformado em arte.
Por fim, há o sentimento. E o sentimento dominante é de desencanto e provocação. Benvenutti parece querer desestabilizar o leitor, obrigando-o a encarar a beleza no grotesco, a lucidez no delírio, e a crueldade naquilo que chamamos heroísmo. É uma literatura que se conecta ao mal-estar moderno, ao vazio e à busca de sentido em meio ao caos.
Analiso aqui três dos contos que mais me impressionaram. E o fizeram pela precisão e pela extensão do impacto, mas, principalmente, pela discrição da mensagem.
“Cartum” se constrói como uma crítica social que expõe a engrenagem do trabalho e da economia em sua face mais contraditória. A figura que aprisiona o trabalhador não é um grande industrial distante, mas alguém que também depende do sistema, que precisa comer, juntar dinheiro, comprar uma casa na periferia. Ele quebra as máquinas não como ato de revolta consciente, mas como consequência da própria lógica de corte de custos e da precariedade que corrói o sustento de quem depende delas. Há uma ironia amarga: o opressor também é vítima, apenas situado em outro degrau da hierarquia. O texto desmonta a ideia de que o emprego é a base da vida, mostrando que o que se precisa de fato é comida, braços, amor, e não salário ou propriedade. A periferia que cresce em torno da metrópole é apresentada como enxame de abelhas em torno de um sorvete derretendo, imagem que traduz a expansão desordenada e a fragilidade de um sistema que se dissolve ao sol. No desfecho, quando o narrador se senta ao lado do "refém" e assiste a um desenho animado, há uma inversão: patrão e empregado tornam-se personagens de uma mesma farsa, como figuras de um cartum que só fazem sentido em sua relação de perseguição e dependência mútua - como Tom & Jerry, Coiote & Papaléguas. O gesto de deitar a cabeça no ombro do trabalhador e dormir sugere tanto uma paridade inesperada quanto uma rendição ao absurdo, como se ambos fossem peças de um jogo que não podem abandonar. O conto, assim, revela a crueldade banal do sistema produtivo, mas também sua dimensão caricatural, onde opressor e oprimido se confundem e se tornam parte de um mesmo espetáculo.
Já “Tomates” pode ser lido em diálogo com algumas das influências que já apareceram em outros textos de Sábados Vazios. A presença de Baudelaire se manifesta na recusa da menina em se submeter ao estudo disciplinado, como se a verdadeira lucidez estivesse fora da ordem escolar e dentro da experiência sensível, nos pés sujos de terra e no contato direto com o mundo. Há também um eco pasoliniano na crítica ao pai como figura de autoridade que reprime o corpo e a liberdade, lembrando o olhar de Pasolini sobre a sociedade italiana e sua violência cotidiana contra os mais frágeis. O gesto de bater nos pés com uma colher de madeira é quase uma alegoria da repressão cultural que Pasolini denunciava. Por fim, a ideia de que o heroísmo ou a maturidade surgem apenas após a morte do pai conecta-se a Nietzsche, na medida em que a libertação só acontece quando a autoridade é superada e a vida pode ser afirmada em sua própria potência. O ato de comprar tomates, simples e banal, torna-se símbolo dessa afirmação: a menina agora adulta escolhe por si mesma, caminha com os pés calçados, e inaugura uma autonomia que antes lhe era negada. Benvenutti, nesse conto, condensa em poucas linhas uma crítica à disciplina imposta, uma celebração da liberdade sensível e uma metáfora da emancipação existencial, em diálogo com tradições literárias que vão do decadentismo ao pensamento filosófico moderno.
Por último, o conto “Sábados Vazios”, que dá título ao livro e funciona como seu testamento final, é uma espécie de confissão amarga e ao mesmo tempo um manifesto existencial. A voz narrativa se coloca diante da impossibilidade de acreditar na alma, mas insiste em afirmar sua existência como espaço de dor e de resistência. Há um sarcasmo que atravessa o texto, mas não como ironia leve: é um sarcasmo pesado, que denuncia a falta, a tristeza, a incapacidade de se integrar ao convívio social feliz e inesquecido. O narrador deseja ser inconsciente, uma “besta estúpida”, mas não consegue escapar da lucidez que o trabalho, o álcool e o desejo lhe impõem, trazendo-o sempre de volta à realidade vil das ruas.
Essa alma que resiste e joga sujo revela-se em pequenos atos fúteis, vilanias infantis, que desconstroem qualquer pretensão de bondade. A frase de que “as boas ações não passam de maldades não praticadas” sintetiza a visão desencantada do narrador: o bem não é uma essência, mas apenas a ausência de um mal que poderia ter sido feito. A bondade, então, é violenta e cínica, como a poesia perfeita da vida. O conto se fecha com a imagem de um sorriso sem dentes, um gesto de fragilidade e desencanto, no meio de sonhos diurnos que se dissolvem nas ruas ventosas e sujas de Porto Alegre. O sábado vazio é o símbolo dessa existência sem amor, sem pertencimento, sem transcendência.
Fecho do livro, “Sábados Vazios” concentra o tom de toda a obra: uma literatura que não busca consolo, mas expõe a ferida aberta da vida contemporânea. É um testamento porque declara, sem rodeios, a impossibilidade de amar, a recusa de ilusões e a aceitação de um vazio que se torna matéria estética. Benvenutti transforma o desencanto em linguagem, e a linguagem em testemunho de uma alma que, mesmo negada, insiste em existir.
É bom saber que o conto brasileiro respira. E que a literatura brasileira se revigora naqueles que foram postos de lado. Faz sentido. Observar à margem é sempre melhor que ser jogado no fluxo do rio. É ótimo ler a obra de um autor cujos pés não foram mordidos pelas piranhas".
Resenha escrita por Claudio Comendini.

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