NINGUÉM FALOU QUE SERIA FÁCIL



Cecília não aceitou a decisão. Sapateou, chorou esganiçado. Com o ano letivo em andamento, teve de ser matriculada numa escola de ensino médio da rede estadual. Não houve opção. Foi obrigada a abrir mão da convivência diária com os amigos. Estudava no colégio marista desde as séries iniciais, numa das escolas mais concorridas e conceituadas da cidade.

Cecília também parou de frequentar as aulas de natação. Nas férias de julho, ela não fará o prometido roteiro de viagem aos parques temáticos da Flórida. Domingo passado, no almoço de família com a presença do avô paterno, prestou atenção à conversa dos mais velhos. Coisas de adulto. 

As mensalidades da faculdade do irmão estão em atraso. O mesmo acontece com as prestações do financiamento da casa própria. Faz quatro meses que as parcelas do carnê do automóvel do pai não são quitadas. A financeira ameaça apreender o único veículo que restou à família. O carro da mãe e a moto do irmão já foram vendidos. 

Demitiram a empregada doméstica, dispensaram a faxineira e o jardineiro. Cães e gatos da família passaram a comer ração de segunda linha. Todos os cartões de crédito dos pais estouraram. Os cheques especiais excederam seus limites e as contas correntes foram encerradas pelos bancos. As joias da mãe acabaram penhoradas e não houve resgate. Por falta de pagamento, cancelaram o plano de saúde da família.
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Marcelo não compareceu ao tradicional futebol sete das manhãs de domingo com os amigos. Foi convocado para a reunião familiar que antecederia o almoço. Naquele dia, juntamente com o avô paterno, planejaram estratégias para minimizar os embaraços causados pela demissão do pai. Faz quinze meses que ele vem tentando se recolocar no mercado de trabalho, sem sucesso, apesar do currículo diferenciado e dos longos anos de experiência.  

Aconteceu de repente. Em princípio julgaram mal, acreditando que a crise seria passageira. Afinal, até então, o pai trocava de emprego por vontade própria, seduzido por aumentos de salário. Sempre assediado, referência em sua área de atuação, chegou a publicar livros técnicos utilizados em cursos profissionalizantes. Também editou manuais para grandes empresas, viajou a diversos estados e ministrou cursos. 

Foi a primeira vez que viu o pai chorar. Lágrimas de desespero e impotência. Conversavam no escritório e o velho chorou, envergonhado. Não tinha trabalho e isso trazia consequências a todos. Apesar de sua compreensão e da pronta disposição em ajudar nas despesas cotidianas, o salário de estagiário não fazia frente às obrigações assumidas pela família. Era necessário muito dinheiro para manter o padrão de vida que levavam. 

Até a mãe estava disposta a procurar emprego, embora não tivesse experiência em nenhuma área, pois nunca precisara trabalhar. O mais difícil era fazer a irmã de treze anos, mimada por todos, entender que a situação econômica do pai já não permitia os mesmos gastos rotineiros aos quais estavam acostumados.
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Naquele domingo, Osvaldo chegou atrasado à cancha de bocha da associação comunitária. Ao invés de ir ao vestiário e trocar de roupa para entrar em quadra, seguiu direto ao bar. Ficou em pé, sozinho no canto do balcão, bebericando a sua cachacinha com mel. De longe, sinalou aos companheiros. Estava fora do jogo. Apesar dos protestos, manteve-se irredutível. 

Amigo de longa data, o ecônomo da cantina logo percebeu o abatimento do compadre. Alguma coisa grave acontecera. Osvaldo, prata da casa, sempre o primeiro a chegar. Um dos mais habilidosos bochófilos da cidade, apaixonado pelo jogo, daqueles que não perdem a oportunidade de praticar e o fazem com extrema perícia. Depois da família, o jogo de bocha era a sua grande paixão. 

Lá pelo terceiro copo resolveu se abrir. Desabafou sobre o problema do filho caçula. Teimoso, orgulhoso como a mãe. Não aceita a ajuda dos irmãos. Osvaldo, sensibilizado com os apelos da nora, tomou as rédeas da situação. Assumiu, provisoriamente, todas as despesas de manutenção da casa. Também convenceu o filho a continuar enviando currículos para concorrer a vagas de trabalho menos remuneradas, como gerente de oficina.

Viúvo, capitão reformado da polícia militar, dividia seu tempo entre os amigos do clube e a convivência com a família. Os mais velhos, gêmeos, beirando os cinquenta anos, preferiram não estudar e tiveram um começo de vida difícil, tocando o minimercado que administravam em sociedade. Hoje em dia estão bem de vida, estabilizados financeiramente, donos de uma pequena rede de supermercados.  
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Claudio Renato levou tarefas para casa. Passou o final de semana analisando currículos. É o seu primeiro emprego desde que concluiu a faculdade de administração. Gerente de recursos humanos. Chegou a tentar o jornalismo, mas depois de formado nunca conseguiu trabalho. Filho de pais desembargadores, não teve dificuldades para retornar aos bancos da universidade e conquistar um novo diploma. 

Optou pelo curso de administração, mais útil e abrangente do ponto de vista mercadológico. Naquele domingo, finalizava uma importante tarefa que lhe fora confiada pelo diretor da empresa. Uma grande concessionária de caminhões, com filiais em todo o estado, contratara a consultoria de RH para preencher seus cargos mais relevantes.  

Sentado à mesa de trabalho, analisava o resultado das avaliações dos dez melhores classificados. Renato estava diante de um impasse. Havia um candidato, dentre todos os selecionados, que destoava dos demais. O homem era uma referência em sua área de atuação. Foi executivo de multinacional, publicou manuais técnicos, prestou consultorias e conquistou vários prêmios. 

Apesar de sua qualificação acima da média, não era o candidato ideal para o emprego. Naquele caso, por uma simples razão, não poderia contratar o melhor qualificado. Amanhã ou depois, chamado para um cargo mais condizente, melhor remunerado, pediria demissão da rede de concessionárias. Estava decidido. Renato optou pelo segundo colocado.

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